quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

<<< Gramofocas e Bohemians: pré-festa do Grito Goiânia >>>


O Grito! Rock Goiânia 2011 aproxima-se, e para aquecer os motores em grande estilo a Fósforo convocou mais uma festa incendiária. Como relata Fernando Rosa, do portal Senhor F, “o trio Gramofocas surgiu da união de três amigos que gostavam de punk rock, na velha e clássica escola Ramones. A essa influência, agregaram um pouco de rockabilly, country, rock nacional na linha Cascavelletes, Magazine, Léo Jaime e João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, resultando no que se convencionou chamar de punkabilly. As letras, por sua vez, tratam do cotidiano juvenil, com forte presença de temas ligados as relações/confusões amorosas e bebidas alcoólicas, especialmente cerveja, muita cerveja.”

A banda brasiliense, que honra a verve satírica e sacana que marcou o rock brazuca com Little Quail & The Mad Birds, Raimundos e Móveis Coloniais de Acaju, será precedida pelo  The Bohemians, que já em seu nome de batismo anuncia o que esta noite trará: uma celebração ruidosa da boemia e da embriaguez.  E com uma trilha sonora para boêmio algum botar defeito.

O fervo acontece no Metrópolis, sabadão (26/02).

E a entrada morre R$10 para quem chegar até a meia-noite.

<<< videodrome #003 >>>

Lisa & Damien

O foco de hoje no nosso Videodrome, imitação barata dum programinha de clipes, são algumas das "transas vocais" que andaram nos encantando os tímpanos (e as retinas...) por aqui. A libidinosa arte do dueto de casal, que quando funciona transpõe para os palcos as químicas e melodias que rolam na cama, têm clássicos representantes na história do folk (Bob Dylan e Joan Baez...), do r&b (Marvin Gaye & Tammi Terrell...), do pop romântico (Gram Parsoms & Emmylou Harris...), dentre outros. Destes, deixamos só as dicas. Escolhemos para postar aqui no Depredas 3 duetos "indie" que são beleza pura: primeiro, Damien Race e Lisa Hannigan cantando a comovente "Volcano" em algum palco intimista do Glastonbury. Na sequência, os Decemberists unem-se à obscura mas talentosíssima Gillian Welch e mostram todo o poder do novo-folk, vivíssimo em 2011. Para encerrar, Corin Tucker, ex-vocalista do Sleater-Kinney, junta-se a Eddie Vedder e canta "Golden State". Tudo ao vivaço. Curtam ae!



segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

domingo, 20 de fevereiro de 2011

<<< Free Culture >>>

<<< download do ebook [2 mb] >>>

Prefácio da versão Brasileira
Por Fábio Emilio Costa
Vivemos cada vez mais em uma era informacional, para utilizar a definição de Manoel Castells em sua magnífica obra A Sociedade em Rede, uma sociedade aonde todos os processos sócio-políticos-culturais envolvem uma gama cada vez maior e mais diversificada de informações. Entender essa sociedade e o fluxo de suas informações ainda é complexo, e mais complexa ainda é a compreensão de certas batalhas que estão surgindo nos bastidores.
O fechamento do Napster, a corrida de lobbys como a RIAA e a MPAA contra os ditos “piratas da Internet”, a tentativa de transformar a Rede em apenas “mais do mesmo”, uma versão sob nova roupagem do mesmo capitalismo selvagem de sempre, através do controle rígido de quem pode dizer o que sobre quais assuntos, estão mobilizando forças em uma batalha sem trégua.

O copyright é a grande força dessa batalha. De um lado, os grandes monopolistas da informação procuram utilizar-se da força do copyright para barrar a inovação tecnológica e a potencialidade na divulgação da bagagem cultural da humanidade promovidas pela Internet. Do outro, existem as pessoas que procuram potencializar essa transformação, cujo potencial transformador só pode ser comparado ao do período do Iluminismo.


Entender tal batalha é algo extremamente difícil, pois, em seu fundamento, ambos os lados possuem razões para temerem. De um lado, os artistas e criadores temem perderem sua fonte de renda. Do outro, o público teme perder os seus direitos: direito de escolha, de opinião, de crítica, de livre acesso à informação, de livre pensar. É difícil em meio a tantos argumentos, a grande maioria de certo modo válidos, conseguir realmente discernir a real batalha que está acontecendo: não a batalha franca, mas sim a batalha velada entre aqueles que possuem interesses na “mercantilização” da cultura e aqueles que desejam uma cultura cada vez mais ampla e criativa, forte e participativa.

Lawrence Lessig foi capaz de enxergar essa batalha.

“Cultura Livre” é um livro que trata exatamente disso, sobre essa batalha velada contra a monopolização final dos meios culturais. Lessig foi arrastado ao olho do furacão por vários motivos que ele citará durante o livro, e pode ver mais do que muitos puderam.

Lessig é um grande defensor do direito autoral e do copyright, e ele deixa isso claro no livro. Mas ao mesmo tempo ele procura analisar e relembrar uma coisa que está sendo cada vez mais esquecida: o copyright deveria ser um mecanismo de proteção do direito do autor e um mecanismo que impedisse o perpétuo monopólio cultural de alguns poucos indivíduos e/ou entidades, ao garantir que as obras culturais e criativas, após algum período, voltassem ao domínio público, retornando benefícios à sociedade.

Esse livro deve servir de guia para um entendimento profundo dos rumos que estamos tomando e de sinal de alerta: se nada for feito, poderemos oferecer a algumas pessoas e corporações o poder de decidirem sobre a nossa cultura como um todo. “Cultura Livre” deve ser lido por qualquer um que tenha interesse no impacto das novas tecnologias na cultura e sobre a resistência dos grupos atualmente favorecidos pelo direito autoral. Não importa se o leitor é advogado, sociólogo, tecnólogo, cientista da computação, ativista de movimentos culturais, ou apenas um cidadão comum tentando entender as mudanças que o século 21 está impondo à cultura: esse livro é claro e conciso, e funciona como um guia para o caminhar em uma nova e fervilhante batalha pela liberdade de expressão.

Bem, acho que já falei demais. Deixo-lhes com Lawrence e suas palavras sobre uma cultura que não pode morrer. Uma cultura livre.

<<< Zappa é punqui! >>>

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

<<< kiss my limbs >>>




Tentando se manter na vanguarda musical na era da cibercultura, o Radiohead novamente dispensa o CD-físico (será ele em 2030 um item de museu?) e parte para o comércio direto de música digital com seus fãs de todas as latitudes da aldeia global. A ousada iniciativa de acabar com o "intermediário" sórdido que comercializa o produto entre o artista e o público, que com In Rainbows foi uma novidade "radical", é repetida agora com King Of Limbs --- prova de que esta é uma alternativa economicamente viável e capaz de disseminações fantasticamente velozes do material mundo afora.

Pelo menos quando você é o Radiohead e têm gente de pelo menos umas 150 nacionalidades afim de pagar nove dólares pelo download do seu disco em MP3 (ou os U$48 que compram a versão de luxo: 2 vinis, 1 CD, luxuoso artwork...).  Claro que o "espalhamento" quase "viral" das MP3 "oficiais" em sórdidos blogs piratas metidos a Robin Hoods é previsto, e a própria banda deve estar perfeitamente consciente de que em poucos minutos após o lançamento já haverá uma cacetada de torrents, zips no rapidshare, usuários no soulseek, links no facebook e o caralho a quatro disponilizando de graça o que no site oficial da banda é liberado só com o pagamento do pedágio.

Cabe a você, que está agora embarcado neste barquinho pirata aqui, decidir: vai pagar as 9 doletas e dar uma forcinha financeira para uma banda já multimilionária, ou vai baixar o bichinho digrátis aqui no Depredando (ou em mil outros pontos virtuais...) que continua com lucro zero eterno? 

Dilema!


<<< 8 tracks - 192 kps - 51 MB - download >>>

<<< a flor de lótus: novo vídeo do radiohead >>>

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

<<< oasis reloaded >>>


O Oasis acabou, mas o ego de Liam Gallagher não des-inchou: "vou passar no Teste do Tempo, como os Beatles e os Stones!", garante o modesto megalômano numa das canções do debut do Beady Eye (que é o Oasis em sua formação mais recente, só que sem o Noel). Agora que as fraternais tretas dos irmãos Gallagher devem parar de frequentar os tablóides sensacionalistas da Inglaterra, resta saber se o Beady Eye vai aguentar o tranco de se manter na crista da onda, ao invés de ser submergido por dois outros lançamentos de muito peso que vem aí: os novos de Strokes e Radiohead.

De qualquer modo, a primeira ouvida que demos no Different Gear, Still Speeding (baixae!) deixou boa impressão: o Beady Eye não fez feio, apesar de não ter arriscado nada muito diferente do que o Oasis vinha fazendo nos últimos 10 anos, e mantem viva a polêmica persona de Liam Gallagher: seria ele um  gênio do pop, que faz jus à sua ambição beatlesca, ou só um presunçoso chatonildo, mestre da auto-promoção espetaculosa?...

<<< bolivarismo bônguico >>>


"Hoy son la mejor banda independiente de Brasil": é este o pitaco da Rolling Stone argentina sobre o Macaco Bong, e não somos nós que iremos discordar. Ao que parece, o power-trio de Cuiabá começou com merecido impacto a disseminar seu som e idéario América Latina afora: tocaram recentemente no Niceto, em Buenos Aires (que estava bombado), e num festival em Valparaíso, no Chile.

Nada mal para uma banda instrumental altamente experimental, doidona e groovy em doses equivalentes (ambas cavalares...), e que têm agilizado uns esquemas de deixar boquiaberto (e de bico calado) aqueles que duvidavam dos imensos potenciais de todos os projetos fora-do-eixo.

Se você ainda não baixou Artista Igual Pedreiro, não durma no ponto: restam poucas dúvidas de que a história há de entronar este álbum como um dos mais fundamentais pilares para o rock brasileiro dos últimos anos, um ponto-de-virada que ajudou a pôr em marcha algo de novo que só estamos começando a desvendar onde é que vai dar... Afinal, nós, os vivos hoje, somos apenas os primitivos de uma cultura nova que virá! (como tio McLuhan costumava ensinar...)

Em suma, fica a boa nova: massa demais este intercâmbio Mercosul rolando de modo cada vez mais intenso! Estreitemos cada vez mais os contatos com nossos hermanitos! Que mais bandas brazucas possam circular pelo continente, e que possamos receber muita arte latino-americana por aqui também! 


Acima: Macaco Bong no encerramento do Goiânia Noise 2010, lá no Câmpus da UFG, durante o show "Futurível" (que contou com a presença ilustre de Gilberto Gil), frente a um público que eu calculo chutando numas 20.000 pessoas.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

<<< panis et circenses >>>


O bang-bang cibernético continua: o Web-Sheriff e seus asseclas não páram de meter bala nos índios piratas, e estes continuam com a caravana ainda que os cães ladrem. Metáforas espertinhas à parte, o fato é que boa parte dos álbuns recém-lançados que disponibilizamos aqui no blog foram dizimados pelas "ôtoridades" (que por sinal ainda acreditam no conto-de-fadas para ingênuos de que vão conseguir destruir a "anarquia" do MP3 e do comunitarismo digital e salvar a indústria fonográfica de sua agonia...). O jeito foi inventar uma Sierra Maestra onde manter vivos os disquitos que escaparam ao massacre: para isso criamos uma página específica ("2011"), acessível lá no menu de cima, onde ficará a coleção (expandida gradualmente) dos pães quentinhos que os hómi permitiram que sobrevivessem. Aproveitem correndo o que está nas prateleiras antes que eles voltem a depredar nossa padoca... :-(

Tão lá: Bright Eyes / Cowboy Junkies / Dears / Destroyer / Decemberists / Gang Of Four / Gregg Allman / PJ Harvey / Smith Westerns / Social Distortion / Sonic Youth / Twilight Singers.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

<<< Us Now: ótimo doc sobre tecnologia, cibercultura, redes sociais etc >>>

<<< Noite Fora do Eixo >>>


Para celebrar a inauguração da Casa Fora do Eixo em Sampa, inaugurada há pouco lá na Liberdade e que já começou a incendiar a cultura independente paulistana, vai rolar nesta terça (15/02) no Studio SP um festório com os porteños do Tremor, os goianos do Black Drawing Chalks (que acabam de lançar o fodástico Live In Goiânia) e o paraibanos do Cabruera. Saiba mais e não deixe de colar!
<<< pj harvey let england shake [2011] >>>

sábado, 12 de fevereiro de 2011

<<< A Tábua de Esmeralda, de Jorge Ben, por Luiz Tatit >>>

Luiz Tatit

...um tributo à assimetria. Acho que sem ela a canção brasileira não seria o que é. Ou seria pela metade. Teríamos as soluções métricas e harmônicas impecáveis de Tom Jobim e João Gilberto, repletas de defasagens e dissonâncias, mas não poderíamos saborear os miraculosos desencaixes silábicos e acentuais que nos põem de frente com a estética crua da nossa linguagem oral. Isso é com Jorge Ben, que, a pretexto de fazer canções para "animar a festa", tem demarcado um território único de criação para a nossa música pop.


A Tábua de Esmeralda, 1974, é talvez a expressão mais concentrada de seu mundo mitológico, povoado por heróis, profetas, semideuses e espaços siderais que não estão no gibi mas parecem dele ter saído. Como é bom ouvir a 2a parte de "Os Alquimistas Estão Chegando", aquela que poucos conseguem lembrar e reproduzir pela irregularidade da linha do canto, e poder dizer, junto com o autor, que "[os alquimistas] evitam qualquer relação com pessoas de temperamento sórdido, de temperamento sórdido". Sempre repito esse trecho e, em seguida, lastimo à maneira de Itamar Assumpção: "Por que que eu não pensei nisso antes?"

Todas as brincadeiras rítmicas ou melódicas de Jorge Ben geram temas que vão do singelo ao surpreendente. Do "homem da gravata florida" aos "planetas de possibilidades impossíveis". A partir de um motivo como "vou torcer...", o compositor cria o refrão "...pelas moças bonitas", ou seja, nada mais simples e esperado. Mas logo percebemos que isso é apenas uma "cama" inicial para acomodar as imagens menos prováveis que serão disparadas na sequência. "Vou torcer: pelas coisas úteis que se pode comprar com dez cruzeiros... pela agricultura celeste... pelo Santo Tomás de Aquino... pelo meu irmão... pelo gato Barbieri... pelo meu amigo que sofre do coração", e assim por diante. 

É desse disco ainda o clássico "Zumbi", em sua versão mais feliz, que, inexplicavelmente, nunca mais foi reproduzida pelo autor (Caetano Veloso, às vezes, reinterpreta essa versão). Trata-se de um dos seus melhores épicos --- os outros são "Charles, Anjo 45" e "Jorge da Capadócia" ----, que já inicia com uma engenhosa enumeração rítmica de regiões africanas de onde proveio boa parte dos nossos antepassados: "Angola Congo Benguela Monjolo Cabinda Mina Quiloa Rebolo". A melodia que sustenta as estrofes contém um desenho de lamento a cada final de verso. E que versos! "Aqui onde estão os homens / De um lado canas de açúcar / Do outro lado o cafezal / Ao centro os senhores sentados / Vendo a colheita do algodão branco / Sendo colhido por mãos negras / Eu quero ver / Quando Zumbi chegar..."

Sinto como se não pudesse viver sem essa música. E não há cenário melhor para curti-la que uma ilha deserta.


<<< d >>>

Texto originalmente publicado na série
"Ilha Deserta", da Folha de São Paulo, p. 124-125.
Ed. PubliFolha. 2003. Editor: Arthur Nestrovski.


p.s.: Em breve, Jorge Ben promete tocar ao vivo este disco na íntegra,
atendendo a intensas tuitagens e a campanhas blóguicas como a do Eu Ovo.

<<< Punkices para Simpsomaníacos >>>

Sheena Homer is a Punk Rocker.

(Uma camiseta à venda lá em La Boca, 
Buenos Fucking Aires.)



Aproveitando a deixa:
já viram esta abertura que o Banksy bolou?

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

<<< Diva é a Mãe! >>>



Considero o Slow Motion Ballett, debut da Bluebell, um dos melhores álbuns brazucas da última década. Foi com alegria, pois, que fiquei sabendo (via Scream & Yell) do grato retorno de Bel Garcia. Ela está lançando seu segundo álbum, Eu Sou Do Tempo Em Que A Gente Se Telefonava (algumas canções já disponíveis no MySpace). E o clipe de "Chalala" já é o que basta para suspeitar que este será um dos discos brasileiros mais encantadores deste 2011.

É vero que a idéia vem de Bob Dylan em seu clássico clipe para "Subterranean Homesick Blues", vídeo em que Mr. Zimmermann oferece às câmeras estilhaços dos versos de sua letra surreal, ginsbergiana, quase incapaz de acompanhar com os cartazetes a velocidade frenética da declamação.

Pode-se perguntar: como é que se define o limite entre o plágio e a homenagem, a reciclagem frutífera e o pastiche? No caso deste novo clipe da Bluebell, achei que ela soube infundir vida e criatividade própria ao "happening" dylanístico e fez algo com sua cara. Com tiradinhas cômicas certeiras ("abaixo as áreas VIP" e "diva é a mãe!"), comentários botequístico-literários (é  preocupante continuar idolatrando Bukowski depois dos 30?) e provocações poético-confessionais ("aprecie o caos..."), Bel e sua equipe deram à luz um clipe-pérola, desses com um sabor cinematográfico, quase um curta-metragem daqueles que a gente não esquece mais...

Voltamos ao assunto quando eu puder ouvir o álbum inteiro. Enquanto isso, curtam ae a dobradinha Bluebell e Dylan.


Galera de Goiânia e arredores, fica a dica: neste Sábado, 12/02, a Radiocarbono lança lá no Metropolis seu disco de estréia, Enteado do Samba, numa festança em que tocam ainda o Chimpanzés de Gaveta e os DJs Pablo Kossa e Abdala (que assina o belo blog Tapetes Sírios). Ambas as bandas voltam a tocar no Grito! Rock Goiânia, no Martim Cererê, nos dias 05 e 06 de Março (mais info logo mais!).

Na sequência, confiram "Amor Couve-Flor", samba-rock primoroso e com um belo groove, que já começa com um memorável verso à la Fred 04 ("se minhas mulheres tivessem metade de minha loucura... hoje eu já estaria morto"). Quem quiser pode ouvir mais um som dos caras na Rádio Fósforo Cultural que está aí no menu do lado direito.

<<< a nova dos Strokes >>>

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

"Eu Sou Parte de Nós" (Diego de Moraes & o Sindicato)


#1

DIEGO E O SINDICATO
Parte de Nós



A normalidade... de ponta-cabeça.
Está mais do que na hora de dar um pé-na-bunda do "complexo de vira-lata", termo que Nelson Rodrigues cunhou para se referir ao complexo de inferioridade brasileiro, este "narciso às avessas que cospe na própria imagem". 

"Coitado de quem pensa que me faço de coitado!", garante Diego de Moraes em "Sobrevivo", negando-se a baixar a cabeça só por ser brasileiro --- no caso, um "cuiabano de Goiás" (e muito mais).

Com a cabeça muito erguida e o canto muito solto, o cantor e compositor estréia em álbum com um grau de auto-confiança, versatilidade e transbordante criatividade que não encontrei em nenhum outro canto do mundo neste 2010. Por essas e outras, Parte De Nós, debut do Diego e o Sindicato, me parece ser um sopro de vida que o Terceiro Mundo Festivo, para usar o termo do Wado, lança sobre a cultura de hoje, tão marcada lá fora pelas melancolias desanimadoras de Radiohead e Arcade Fire.

Se esta é a nova cara da música brasileira, fico muito feliz pelo presente (e pelo futuro) da música brasileira. Pois o rosto que vejo é risonho, criativo, ousado. É como que um redespertar do espírito lúdico que um dia deu o tom na vanguarda da música brasileira com o tropicalismo,  Raul Seixas, Tom Zé, Os Mutantes, Rita Lee e Arnaldo Baptista ("o lóki surreal")...

Mas “neo-tropicalismo” não cola, como rótulo, pelo menos pra mim: soa redutor para um artista que, apesar da influência da Tropicália, também gosta de Raul Seixas e dos Stooges, de música sertaneja de raiz e dos ruídos rock'n'roll de Goiânia Rock City. Outros dos compositores em quem Diego se inspira são "marginais" da MPB: Sérgio Sampaio, Itamar Assumpção, Luiz Tatit, artistas em que o jogo lúdico com palavras e sons dá o tom. É nesta senda que Diego se aventura, quase sempre com resultados muito positivos. 

O álbum, concebido como um livro ou um álbum de fotografias (alegre às vezes como um Monteiro Lobato), e dotado de um dos mais belos encartes que já vi (ilustras de Thiago Xavier), é um carrossel poético de um cara atravessando tudo sem jamais “se estrupicar”: “sem medo de falar e errar, sem medo de andar e tropeçar” (“Quase Nada”).

Diego de Moraes não é exatamente um sujeito normal. Em primeiro lugar, pois o grau de inventividade e amor-pelo-ofício necessários para levar 3 bandas simultâneas encontra-se em poucos cantores-compositores brasileiros. Além do Sindicato, Diego dedica-se ao tropicalismo experimental do Pó de Ser e à dupla indie-sertaneja Waldi e Rédson (onde faz par com o Chelo do Porcas Borboletas). Como se não bastasse, ainda tem ânimo para escrever uma coluna semanal no Diário da Manhã, dar aulas no ensino médio em sua cidade (Senador Canedo-GO), fazer Mestrado em História e deixar sua marca na blogosfera em seu diegodemoraes.blogspot.com.


O leque de referências contidas no álbum é vasto: de Stooges a Chacrinha, de John Lennon a Tonico e Tinoco, de Nietzsche a Jesus. "Pelas Barbas do Profeta", que conclama o ouvinte a "acordar agora pois o tempo está indo embora", mapeia um pouco da constelação que influi sobre a arte de Diego. Nela, ele cita os olhos de Chico Buarque, as veias de Jimi Hendrix, os traços de Robert Crumb, os versos de Camões e o Grande Sertão: Veredas... Diego saúda ainda “quem quer que fume”, e o verso tem muito mais aroma de cannabis que de tabaco, ainda que a referência seja bem mais sutil do que os escancarados maconheirismos de D2 e Cia. O ecletismo desta miscelânea pop-cult demonstra a versatilidade da formação cultural de Diego e o quanto ele é capaz de aprender de várias fontes. O resultado é um álbum de alguém bem mais sábio do que seus vinte e poucos anos sugerem.

O moog do Astronauta Pinguim deslancha o álbum em ritmo de new-wave, algo entre Blondie e Elvis Costello. Diego começa sua viagem poética sublinhando a inerente irracionalidade do coração: "Eu queria pensar em quem me quer / Querer quem pensa em mim". Seria o mais racional. Mas, como um dia perguntou Renato Russo, "quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração?" Diego assina em baixo e termina por problematizar a noção aristotélica de que o homem seria um ser racional. "Sou só um homem: um animal irracional".

"Amigo" já declara em seu título suas intenções benévolas. É uma música que chega estendendo a mão com simpatia, aberta à amizade, mas que sabe que a verdadeira amizade não se dá entre seres idênticos, mas entre criaturas capazes de se amar na diferença. "Amigo, eu sempre tento ser um pouco diferente", já sai dizendo Diego, como quem confessa um traço de caráter: um desejo de não ser um clichê ambulante conjugado a uma certa antipatia pela diferença extrema, aquela que isola e desamiga. "Só um pouquinho diferente já me é suficiente".

Quando Diego entoa "eu me sinto tão igual / Um sujeito tão normal / Não sou nada genial", não é no tom reclamão ou ranzinza de quem se deprimisse com isso. O disco celebra a capacidade do afeto ultrapassar as pontes erguidas pela diferença, pelo preconceito, pela rotulação. A alegria de que, ainda que sejamos diferentes uns dos outros, cada um possa se tornar não um eu-ilhado, mas uma parte-de-nós. Ponha Tom Zé e John Donne no liquidificador, e eis "Amigo": um semi-hino neo-tropicalista que já transcendeu as fronteiras do Brasil e andou sendo citado até na Inglaterra pelo jornal Guardian UK como representante notável da nova MPB.

"Anormalidade" volta a pôr em lúdica questão um dos eixos temáticos principais do álbum, a oposição normal/anormal, sadio/patológico. Diego está a todo momento querendo borrar os limites desta dicotomia e mostrar o quanto de loucura cavalar há em nossa normalidade, e o quanto de sopro de vida sadio há no que chamam de loucura. Na colorida jornada de "busca de si" narrada pelo álbum, a identidade pessoal nunca é idêntica à persona social que cada um assume, às vezes por pura "normopatia" (termo de Gaiarsa para descrever aqueles obcecados com as normas, obedecedores neuróticos dos clichês).


Os esparsos comentários sobre religião em Parte de Nós também são reveladores de uma atitude questionadora e brincalhona, heterodoxa e tolerante, de quem demole dogmas e clichês com a malandragem marota e desencanada típica do brasileiro. "Todo Dia" rascunha ironias pra cima daqueles que "todo dia carregam sua cruz e rezam pra Jesus". Em "Quase Nada", Diego faz uma crônica paródica de uma reza popular: "eu rezo pro meu padim Ciço e pra Nossa Senhora do Perpétuo Socorro pra abençoar esse povo trabaiadô do meu sertão, obrigado meu Jesus!". Em um dos poucos momentos que torna-se mais sentencioso do que lúdico, Diego arrisca uma tese teológica que não é sem ligação com aquela de Lennon ("God is a concept by which we measure our pain"):

"Você olha pro céu tentando achar aquilo que já está em você
Vamos vivendo à prestação: esperar o céu e viver no chão"


Laerte
Mas é em "Deus Seja Louvado", épico de 6 minutos que nada tem de um gospel tradiça, que Diego sintetiza seu irônico e complexo comentário religioso num idiossincrático papo musicado com a divindade. O ouvinte desavisado que pensa encontrar nesta canção uma louvação ao Bom Velhinho lá nas nuvens irá logo ser desiludido pelo sarcasmo benigno de Diego.

Este deus ele utiliza sem nenhuma fidelidade bíblica, prestando tributo mais às tirinhas do Laerte do que aos Evangelhos. É um deusinho fia-da-puta, capaz de, quando andando detrás da gente, nos dar um empurrão. Deusinho que está lá, como exortação à prece, na “nota de um real”, a cédula com que sonham os mendigos. Deusinho que os cachaceiros invocam nos botecos quando ficam sem um trocado e querem que chova dos céus a "pinga com limão (aleluia irmão!)"

Escancarando que os pedidos que os humanos dirigem aos céus são sempre impregnados de desejos mundanos, Diego faz uma mosaico de preces tão autênticas quanto cômicas. Põe lado a lado preces mais tradicionais (sobre libertar da culpa, tirar do fundo do poço, cicatrizar feridas, dar coragem para continuar neste "mundo imundo"...), com desejinhos bem mais simples: pão, mussarela e presunto.

A ironia fina (e pesada) perpassa os comentários sobre os pastores evangélicos pilantras ("vou virar pastor para faturar a próxima eleição", alfineta Diego), sobre a polêmica evolucionismo vs. criacionismo ("tantos séculos de evolução para acabar nesta situação...") ou a floresta de pensadores que se contradizem ("Marx, Buda, Nietzsche, Cristo, Freud, Alá, Sartre ou Tupã?"). Em suma, fica-se com a agradável impressão de que nenhuma ortodoxia ou crença é pregada pelo poeta, mas que ele é capaz de tirar aprendizado e alegria tanto da "mente do descrente" quanto do "amai-vos uns aos outros" dos Evangelhos.

Outra das obras-prima de Parte de Nós é "Todo Dia", canção também épica que tem pelo menos uma irmã ilustre na história da MPB: “Cotidiano”, de Chico Buarque (já regravada num remix electro-tropicalista por Seu Jorge), que também faz a crônica chacotística da vida perdida nas chaturas da monotonia.

“Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

Todo dia ela diz que é pr'eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher.
Diz que está me esperando pr'o jantar
E me beija com a boca de café.”


Diego, porém, mostra-se mais impaciente e furioso do que Chico e ergue a voz em protesto contra a "monotonia, burocracia, desarmonia, correria" (que agonia!) de "todo dia". Todo dia é a mesma novela, a mesma fila, a mesma espera, a mesma cruz. Todo dia, "espremido no buzão"; e todo dia, "arroz com feijão". Esta repetitititividade irritante é o que a canção radiografa, mais uma vez pondo em questão a sanidade do que tomamos por normalidade mas não passa de tique, neura, compulsão à repetição...


É o mesmo espírito de Monteiro Lobato em Cidades Mortas, clássico livro a tirar um fino sarro dos "mesmeiros", aqueles que "todos os dias fazem as mesmas coisas, dormem o mesmo sono, sonham os mesmos sonhos, comem as mesmas comidas, comentam os mesmos assuntos, esperam o mesmo correio, gabam a passada prosperidade, lamuriam do presente e pitam - pitam longos cigarrões de palha, matadores do tempo..." (in: Cidades Mortas, p. 26, Ed. Brasiliense).

“Todo dia eu posso morrer. Todo dia você foge de você.” Diego canta sobre a consciência da certeza inelutável da morte e da fuga do auto-conhecimento com uma simplicidade, uma serenidade e um senso de humor altamente vivificantes! Diego traz a boa nova: a de que é possível cantar um “tudo bem, tudo bem, tudo além do bem e do mal...”. Quase como um nietzschiano dos sertões de Goiás, inconsciente talvez dos pressuspostos filosóficos que correm, como rios secretos, por detrás da correnteza de suas letras...

Não há dúvida que grande parte do charme do álbum está na descoberta quase inevitável que quase todo ouvinte atento fará: a de que está diante de um novo poeta. É a palavra que se impõe quase imediatamente quando penso em Diego de Moraes: poeta. Ele tem a vantagem prévia, que não é pouca, de ter o mesmo sobrenome de Vinícius. Não é negligenciável, especialmente junto ao público mais velho, fã de bossa nova e saudoso de Toquinhos e Toms. Só que Diego é bem pouco bossa-novístico. Seu tom-zézismo desencanado, sua sadia incapacidade de se levar muito a sério, o preservam da pretensão excessiva, da gravidade empolada. Diego, por exemplo, tem a manha de rimar "Romeu & Julieta" com "punheta" (!).

A arte e a brincadeira são parentes próximas, parece sugerir o artigo primeiro da Estética Dieguiana. Não é à toa que as mães costumam censurar as peraltices de seus filhos chamando-os de “arteiros”. Para Diego, a arte tem que ser cheia de piscares de olhos, zuadinhas marotas e chutes na bunda. A música do Sindicato (ótima banda, também!) é tão livre e solta que é como uma ventania fresca que derruba das árvores as folhas secas dos dogmas. Não há espaço algum para autoritarismo, aqui: tudo no álbum remete à criação alegre de uma brincadeira fecunda.

Álbum simpático e amigo, criativo e alegre, poético e lúdico, colorido e complexo, que há de ensinar ao ouvinte a maravilha da diferença, da amizade e da arte de, ao invés de se conjugar na primeira do singular, saber que "eu" não passa de "parte de nós".

DIEGO E O SINDICATO Parte De Nós (Fósforo Cultural, 2010)
<<< download >>>

.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

<<< MUGO: Go to The Next Floor... and Play It Louder! >>>

Design: Bicicleta Sem Freio
 

"A gente precisa destruir esse paradigma de que Goiânia é só sertanejo, ou  só rock alternativo e de garagem, e mostrar que aqui tem banda pra caralho fazendo metal de qualidade", afirma Pedro, vocalista do Mugo, frisando a considerável cena headbanger que fervilha, ainda que sorrateira, na capital goiana.

Se não faltam à Goiânia artistas de firmes raízes na cultura nacional, com um som impregnado de brasilidade (caso de Umbando, Cega Machado, Diego e o Sindicato, Grace Carvalho...), a capital goiana também têm se celebrizado, de uns anos para cá, pelo tremendo vigor de suas bandas do bom e velho "rock pauleira" e que já nasceram sob o signo da globalização.

Alguns vergam mais para o lado stoner (Black Drawing Chalks, Hellbenders), outros são mais garageiros (Bang Bang Babies, Space Monkeys, Ultravespa, Black Queen...), com espaço ainda pro hard-rock de inclinações glam (Johnny Suxxx & The Fucking Boys) e para a quebradeira sabbáthica dos veteranos da cena (Mechanics e MQN). O extremismo death-metal e congêneres também marca truculenta presença com Necropsy Room, Ressonância Mórfica e outras de nome tão meigo quanto.


O Mugo, representante ilustre das vertentes mais extremas do rock'n'roll em Goiânia, e que teve como precursores os insanos do Punch e do Desastre, sintetiza várias vertentes da música pesada, do thrash metal ao hardcore, do grind ao grunge. “Brutal” e “extremo” são os adjetivos mais precisos para descrever tanto o som quanto os intensos shows da banda, que já estremeceu os alicerces de grandes festivais brazucas (como Porão do Rock, Calango, Do Sol, Goiânia Noise, Vaca Amarela, dentre outros). Eles são o exato oposto das anoréxicas esqueléticas que obcecam com emagrecer: o Mugo quer sempre ganhar mais e mais peso.

Dentre as bandas brasileiras pesadas da nova geração, eles são uma das que apresenta maior potencial de exportação. O inglês sem sombra de sotaque caipira e a produção impecavelmente profissa tornam altamente plausível que a banda conquiste cada vez mais fãs no mercado gringo, em especial entre a molecada fã de Lamb Of God e Slipknot e entre os headbangers mais rodados, que já quebraram muito pescoço com o Pantera e o Slayer.

Go To The Next Floor (2009), álbum de estréia do Mugo, lançado pela Fósforo Cultural no Brasil e pelo selo Siksigma nos EUA, é um exemplar responsa do novo metal brasileiro. Deu repercussão considerável no exterior, a julgar por alguns reviews em revistas gringas e pelos mais de 73 mil amigos e 1 milhão de plays no MySpace.

Na sequência, compartilhamos os melhores momentos do papo que batemos com o vocalista Pedro nos headquarters da Fósforo, no Centro de Goiânia, no começo de 2011, ano que, com o lançamento do segundo álbum da banda, promete ser cheio de correrias e conquistas.

 * * * * *

O nome Mugo, lido de trás pra frente, dá "Ogum". O que representa pra vocês a mitologia em torno deste orixá que serviu para batizar a banda e é tido como intenso, violento, guerreiro...?
Pedro: Esta mitologia foi algo que nos chamou muito a atenção: Ogum é um orixá da guerra, com uma brutalidade que é de sua essência, e que tinha também uma musicalidade muito forte. Pensamos que isto tinha muito a ver com o que queremos fazer com nosso som, uma coisa bem explosiva mesmo. Mas aí ficamos meio encanados de ficar meio estereotipado, ou das pessoas se perguntarem “pô, mas será que essa galera é macumbeira?” (rs) Então preferimos manter este significado como uma coisa interna, que nos desse força, e preferimos adotar Ogum ao contrário --- e ficou Mugo, que não tem nenhum significado em si, mas quem se interessar pode pesquisar e descobrir esta história que está por trás.


Um dos fatores que mais impressiona o ouvinte de Go To The Next Floor é o fato da banda ter alto "potencial de exportação", ou seja, as gravações estão "tinindo" para estourar na gringa. O Mugo sempre teve essa ambição de que o som transcendesse as fronteiras do país?
Pedro: Cara, com certeza, desde o início tivemos essa vontade de chegar lá fora, especialmente nos EUA e Inglaterra, onde esse movimento de música pesada é tão forte. Até pelo fato das letras serem em inglês, o pessoal lá de fora tem boas chances de entender muito bem a nossa proposta e a nossa mensagem. O primeiro álbum já foi lançado nos EUA (pelo selo Siksigma) e com nosso segundo CD a gente pretende agilizar uma turnê e concretizar esta nossa ida para fora do país.

O bacana é que várias bandas de metal brasileiras já trilharam esse caminho lá fora, mostrando que é bastante viável, caso de Sepultura, Angra, Krisiun...
Pedro: Com certeza. O Krisiun é uma banda respeitadíssima fora, que toca em todos os festivais de metal destes gigantes, tipo Wachen (Alemanha), With Full Force (Alemanha) e Hellfest (França). E tem uma outra galera que já foi tocar lá fora: Claustrofobia (SP), Confronto (SP), Uganga (MG)... São todas bandas que a gente curte pra caralho e se espelha de alguma forma. Acreditamos no nosso potencial e queremos ter a nossa chance de mostrar nosso som lá fora também. Estamos batalhando pra isso, mas é preciso ter muitos contatos, descolar uns bookers (agentes confiáveis que agendem shows), para viabilizar a ida.

Design: Bicicleta sem Freio
Há aquela velha controvérsia sobre bandas brazucas que cantam em inglês: a vontade de ser reconhecido no exterior foi o que motivou, no caso do Mugo, esta escolha?
Pedro: Sempre que me questionam sobre o lance das letras serem em inglês eu falo que, porra, não é porque eu moro aqui que não posso mandar uma mensagem pra quem mora na Nova Zelândia, sacou? A escolha pelo inglês é pelo desejo de alcançar o maior público possível, afinal é a língua mais falada no mundo, só atrás do mandarim, né? (rs) A gente quer passar uma mensagem que seja mundial, globalizada. É a nossa vontade. Mas nem por isso a gente deixa de contar histórias do que acontece com a gente aqui em Goiânia, na terra do pé-rachado e do pequi. Faz parte da nossa cultura: todo mundo tem o “R” puxado... (rs)

Outra coisa que impressiona é o trampo altamente profissa que vocês realizam com divulgação na Internet. Qual o papel da WWW para a disseminação do som do Mugo?
Pedro: Sem a internet, nossa ferramenta principal, praticamente não teria repercussão lá fora. Prensar os discos é caro pra burro, o frete também é uma facada. Por isso, tem uns 3 ou 4 anos que o MySpace é levado super a sério pela banda. Conseguir 70 mil pessoas adicionadas foi o resultado de um trabalho árduo. A gente recebe muitas mensagens de uma galera bem diversificada, da Indonésia à Finlândia, de Los Angeles a Anápolis, de todo canto do mundo. E a gente faz questão de responder a todo mundo e sempre agradecer o apoio quando alguém nos diz “pô, muito foda o som de vocês!” A gente precisa que o nosso som seja ouvido lá longe até para que surja uma demanda, para que a galera que curte nosso som cobre o show e chame para tocar. 


O vídeo-clipe de "Screams" também bombou na net, com mais de 50.000 views no YouTube. Conta um pouco como foi a produção, gravação e divulgação deste vídeo.
Pedro: O "Screams" foi nosso primeiro clipe, dirigido pelo Antonio Guerino numa co-produção Sertão Filmes e 111. Conseguimos permissão para gravar lá no Centro Cultural Oscar Niemeyer, que na época ainda não tava embargado, e foram 24 horas de gravação, uma correria tremenda, muita aparelhagem, muita gente envolvida... A gente convidou todos os amigos e fãs, no dia de gravar tinha umas 300 pessoas lá e a galera se empenhou mesmo pra ficar um material bem legal. Foi um investimento da banda: a gente pôs uma grana nisso, só conseguiu pagar com cachê de show, venda de Cds e camisetas. É algo que vai estar sempre no nosso currículo e que a gente pode divulgar em qualquer lugar porque a qualidade ficou bem profissa.


Rolou de levar o clipe também para a TV ou as redes televisivas ainda são "caretas" demais para veicular um material mais brutal?
Pedro: Cara, quase não passou por aí, na MTV ou na Multishow. Mas se para conseguir o apoio das mídias convencionais a gente tiver que mudar uma vírgula do som, a gente tá fora. A gente não quer isso. Queremos ser extremos no nosso som, como sempre fomos, agradar a quem tem que agradar, nada de mudar para conseguir mais espaço. Mesmo que a gente tenha que focar mais fora do Brasil a divulgação, vamos continuar fazendo o lance do nosso jeito. Queremos continuar arrebentando com tudo, quanto mais pesado melhor!

Quem já viu o Mugo ao vivo sabe como é impressionante a reação do público, que "quebra tudo" numa sessão descarrego... A piração da galera na platéia é algo intensamente desejado e buscado pelo Mugo em cima do palco, não é?
Pedro: Num show de metal, neguinho ficar parado é meio brochante. Você tá lá em cima do palco que nem um louco, quase quebrando a coluna, e você olha e tem gente de braço cruzado olhando pra você, porra, é brochante! A gente respeita quem quer ficar assim, mas a gente convida quem quer quebrar tudo... a quebrar tudo! Fazer o teto cair. A nossa proposta é essa e a gente fica feliz pra caralho quando a galera compra a ideia e quebra tudo, literalmente.

Curtimos fazer o famoso Hall Of Death, ou Corredor da Morte, que se num foi o Pantera ou o Slayer quem inventou, eu não sei dizer que foi... Tem bandas como o Lamb of God que não existe show deles que não ocorra isso. É uma quebradeira muito louca, é uma forma de desperdiçar uma energia ruim, saca? Mas a gente sempre fala pra galera, “pô, se ver alguém caindo, ajuda a levantar, num faz questão de pisar em cima não...” Se alguém cai, logo tem 3 ou 4 ajudando a reerguer, rola muita camaradagem. 

E nunca dá merda, ninguém quebra osso?
Pedro: O (guitarrista) Augusto, no Vaca Amarela, quebrou o pé.  Também, ficou pulando igual um macaco lá! (rs) Aí ficou andando com bota ortopédica por dois meses (rs). A coisa mais brutal foi a gente em Cuiabá, no Calango. Neguinho subia no palco, pegava impulso lá da bateria e pulava de volta como se estivesse mergulhando no mar... Comecei a ficar com medo de alguém esborrachar a cabeça!

Quando você vai num show de música pesada, com certeza toda aquela vibração é a melhor forma de você conhecer o estilo. A maioria dos metaleiros que existem hoje se tornou metaleiro porque foi num show muito brutal, que neguinho entrou na roda de hardcore e se acabou, gritou pra caralho, soltou todos os demônios... E aí você acaba ficando dependente disso, saca? Sem falar que quem gosta de música vê que é uma coisa técnica, que não é fácil de tocar.... 'cê olha e tem um pedal duplo na bateria “comendo”, e você pira no quanto é difícil tocar aquilo...

O metal em Goiânia já tem uma certa história, com precursores importantes como o Punch, o Desastre ou o próprio Mechanics. Como é que você avalia o cenário atual, não só em termos de bandas, mas da articulação entre elas, dos festivais específicos para o segmento e da galera que é ativa no sentido de contribuir para o crescimento da cena?
Pedro: Eu já tô na música como vocalista tem mais de 10 anos. Quando eu comecei o Punch tava indo pros EUA, foi uma banda em que eu sempre me espelhei... e o vocalista Ícaro é um grande amigo meu. A gente precisa destruir esse paradigma de que Goiânia é só sertanejo, só rock alternativo e de garagem, e mostrar que aqui tem banda pra caralho fazendo metal de qualidade: Spiritual Carnage, Necropsy Room, Desastre, Ressonância Mórfica, Deadly Curse, Hypnotica, All Torment... 

O que tá faltando é unificação, começar a falar a mesma língua e correr atrás ao invés de ficar simplesmente falando. Ao invés de entrar na porra do Goiânia Rock City e reclamar que não tem show, junta com outra galera e faz o show! Tem gente fica reclamando que não tem show... ora, corre atrás de fazer o show! E quando tiver o show, motiva a galera a ir pro show! 


Tem galera que tá representando e é uma força que vale muito: o Adriano do UnderMetal, que tá sempre propondo pra galera se unir e discutir formas de viabilizar pra se começar a se viver de banda, o que é muito difícil, especialmente neste estilo. Tem o Pedro, que organiza eventos como o Go! Mosh e o Brutal Fest. Tem um pessoal montando o selo Sangre, que vai dar uma movimentada na cena. Tem o Rodolfo da One Voice também, que sempre lutou pelo hardcore e pelo metal. 

Tem muitas bandas que eu gostaria de trazer pra cá pra tocarmos junto, tipo o Confronto, o Forca (de São Paulo), o Uganga (de Uberlândia), na prerrogativa de depois ir também pra cidade deles, fazer disso um movimento, pra todo mundo poder circular legal. Os caras do Rinoceronte (RS) também são nossos brothers.

Pra arrematar, quais são as perspectivas do Mugo para este 2011?
Estamos extremamente focados na preparação das 11 músicas novas para o nosso próximo CD. Queremos que este material reflita a evolução da banda, que já está com 4 anos de estrada. Além disso, os novos sons trarão uma sonoridade ainda mais densa e pesada como um reflexo da nova formação: o Mugo agora está com duas guitarras. O Augusto e o Lucas (os dois novos guitarristas) se prepararam muito, tiraram todas as músicas e arranjos, a integração deles à banda foi muito fácil. O Augusto chegou dando um “tapa na cara” de todo mundo... o moleque tem só 18 anos e tá chegando com umas músicas brutais, fazendo todo mundo ficar parecendo um vovôzinho perto dele (rs). Um gás e uma energia brutal! A nova sonoridade trará também mais espaço para solos, uma sonoridade mais refinada. A gente pretende gravar em março e sair para tocar um monte, especialmente fora do nosso Estado, em lugares em que nunca tocamos. 

 
MUGO Go To The Next Floor (2009, Fósforo Cultural)
<<< download (autorizado e incentivado pela banda) >>>


p.s: as duas classudas ilustras da matéria, mais um trampo lindo do Bicicleta Sem Freio, vão ser oficialmente lançados no show do Mugo no Grito! Rock Goiânia 2011. O festival rola no Martim Cerêrê, no sábado de carnaval, dia 06 de Março. Mais info em breve!