terça-feira, 1 de abril de 2008

:: Metric ::


Não basta ser sexy. Tem que ter vocal.
Por Marco Souza

2006.

Sábado, não lembro a data. Junho creio eu.

Perdi o útlimo ônibus que saía de Pirituba em direção ao "fervo", como diria o Bueno. Pensando bem, não tenho certeza se foi esse dia. Pro diabo. Aquele ano foi uma droga. Desempregado, morando com meus pais, TCC me cutucando há 2 anos, blá, blá, blá...

Sábado, tecnicamente domingo, já havia passado da meia-noite. Sexytime — Multishow, diariamente depois das 00h30 — chega ao fim. Penso em desligar a televisão. Um programa chamado Fearless Music me impede de me livrar dos raios catódicos. Acho que nesse dia tocou também Juliette & The Licks, mas o que importa. O som que me chamou a atenção foi Handshakes.

O vocal dessa Emily Haines era mais sexy que todas as garotas, vulgo minas, do Sexytime, e ela ainda pirava nos teclados. Para acabar com tudo fechava a música com os versos "buy this car to drive to work/drive to work to pay for this car". Poesia. Foi então que conheci a banda que dominou meu ouvido durante o segundo semestre de 2006, Metric.

O álbum em questão data de Setembro de 2005 e é o que me apresentou à banda. Por isso o primeiro postado (esse verbo exite?) por mim. Misturando pop-indie-punk e o vocal magnífico de Emily Haines, tem-se Live It Out, álbum de rock "moderninho" que definitivamente não irá agradar aos mais conservadores.

Começa com Empty, uma canção que tarda a sujar o doce vocal de Emily com distorção, mas é uma perfeita introdução para o que está por vir. Com destaque para Handshakes (ou Hand$hake$), a baladinha Too Little Too Late, o hit Monster Hospital e Live It Out.

O intrumental do trio Canadense, Jimmy Shaw (guitarra), Joshua Winstead (baixo) e Joules Scott Key (bateria), traz um peso ao som e ambienta perfeitamente o vocal da garota, mas Metric é principalmente Emily Haines. Ela canta sem esforço, firulas, frescuras e afins, tudo soando muito natural. Porém sem a banda ela fica vulnerável e muito mais intimista, como em Emily Haines & The Soft Skeleton, que em breve postarei (existe) aqui.

Quanto à história, bandas antigas, referências, fica tudo para os próximos álbuns.
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DOWNLOAD (mp3 de 192kps - 55 MB - 10 músicas):
http://www.mediafire.com/?xtheizoiom2

quinta-feira, 27 de março de 2008

segunda-feira, 24 de março de 2008

:: Zombies ::

THE ZOMBIES
Odessey & Oracle
(1967-68)


SAFRA MÁGICA
Num ano maravilhoso para o rock, The Zombies fizeram uma obra-prima sofisticada e acessível

por Sérgio Barbo (sessão "Discoteca Básica" d'uma Showbizz antiga)


O lisérgico ano de 1967 foi um dos mais inspirados na história do rock. Younger than Yesterday (dos Byrds), Sgt. Peppers (dos Beatles), Forever Changes (do Love), entre outros álbuns clássicos, são dessa safra. A obra-prima de um grupo menos badalado, porém muito peculiar e influente, The Zombies, também data desse mesmo período dourado. Pop e acessível, Odessey and Oracle é mais um na lista dos discos à frente de seu tempo e de difícil classificação até hoje. Seria protoprogressivo, pop barroco ou mersey-beat (a batida dos Beatles) psicodélico?

Tudo isso e mais um pouco tinha começado a ser engendrado cinco anos antes em St Albans, Inglaterra, pelo tecladista Rod Argent, o guitarrista Paul Atkinson, o baixista Paul Arnold (logo substituído por Chris White), o baterista Hugh Cundry e por Colin Blunstone, que quase foi recusado como vocalista por estar com o rosto repleto de hematomas no primeiro ensaio. Apesar de péssimo desportista, Blunstone tinha garganta apurada e sua voz de garoto de coral mais o teclado quase erudito de Argent se tornaram a marca registrada dos Zombies.

Misturando batidas de jazz, rhythm & blues e mersey sound, os singles “She's Not There” (em 1964) e “Tell Her No” (em 1965) fizeram sucesso na Inglaterra e mais ainda nos EUA, onde alcançaram o topo das paradas. O grupo então se tornou referência essencial para os americanos.

O ápice veio em 1967 com esse segundo álbum. Música pop com rara sofisticação (composta por Rod Argent e Chris White) e letras bem construídas abordando temas pessoais e políticos (como o horror das Guerras Mundiais). Tudo com melodias luminosas e harmonias vocais singelas, embaladas por arranjos de cordas, sopros e cravo.

Fazer um disco de nível tão elevado não poderia nunca ser fácil. E teve como consequência o desgaste das relações entre os integrantes. Resultado: a obra acabou sendo lançada após o fim do grupo, em dezembro de 1967. Ironicamente, “Time of the Season” foi um estrondoso sucesso dois anos depois nos EUA, promovendo um reinteresse pela banda. Propostas vultuosas de retorno foram declinadas por Rod Argent, pondo fim, assim, a uma banda que tornour transitável a ponte entre o simples e o elaborado, entre o pop e o progressivo.

DOWNLOAD (mp3 de 192kps - 55MB):
http://www.mediafire.com/?gwtdgnb2e91

domingo, 23 de março de 2008

:: primeiros grandes discos de 2008 (pt 1) ::

Começaram a sair os 1os biscoitos finos de 2008. Entre eles...

SUPERGRASS - "Diamond Hoo Ha" (87 MB):
http://www.mediafire.com/?xdcjmgzgbjy


BLACK CROWES - "Warpaint" (88 MB):
http://www.mediafire.com/?eky1tgkujgd



VAN MORRISON - "Keep It Simple" (64 MB)
http://www.mediafire.com/?etikvwhbyzz

sexta-feira, 21 de março de 2008

:: Temple of the Dog ::

:: TEMPLE OF THE DOG [1991]

"
O álbum lançado pelo Temple of the Dog é único em todos os aspectos. Talvez nunca houve, na história do rock, um episódio de reunião entre duas bandas que tivesse sido tão bem sucedido quanto nesse álbum. A motivação ao fazer o disco era de prestar tributo ao amigo Andrew Wood, não havia pressão de gravadora, interesses comerciais, ou mesmo prazos para lançamento. O espírito das gravações era o de amigos fazendo música. Os ensaios do Temple of the Dog aconteciam à noite, enquanto que à tarde, Stone Gossard e Jeff Ament ensaiavam em seu novo projeto, juntamente com Eddie Vedder e Mike McCready, o Mookie Blaylock que mais tarde viria a ser o Pearl Jam. Aliás, a história do Temple é marcada por pequenas coincidências. Quando Chris Cornell procurou Stone e Jeff para mostrar a demo de Say Hello 2 Heaven e Reach Down e apresentar a idéia, Stone e Jeff estavam trabalhando em uma demo junto com McCready e o baterista Matt Cameron (baterista de qual banda? Soundgarden!) Matt imediatamente se tornou o baterista do Temple of the Dog. Essa fita demo que Stone e Jeff estavam fazendo circulou pelo circuito underground da costa oeste e chegou as mãos de um surfista de San Diego: Eddie Vedder!! Eddie compôs as letras para as músicas da demo e foi para Seattle bem na época em que eram feitas os ensaios do Temple of the Dog, e assim ele soube do projeto, acabando por completar a formação da banda, cantando em 'Hunger Strike' e fazendo backing vocal em mais 3 faixas. (...) O disco, lançado em 1991, teve uma vendagem modesta até a metade de 1992 quando a gravadora A&M resolveu divulgar o Temple of the Dog após o sucesso do Pearl Jam. O álbum entrou na parada da Billboard e atingiu o top 10, chegando a marca de 1 milhão de cópias no fim do ano." Alexandre Luzardo, na DYING DAYS.

DOWNLOAD (mp3 de 192kps - 11 músicas - 96MB):
http://www.mediafire.com/?5tirmh1bxmz

domingo, 16 de março de 2008

:: os 10 melhores dos anos 60...- #05 ::

[5º]

VAN MORRISON
Astral Weeks
(1968)



MYSTIC RIVER OF SOUND
- por Eduardo Carli de Moraes -


Chega a ser inacreditável que tamanha obra-prima tenha nascido da alma de um jovem irlandês intratável de apenas 23 anos de idade – o garoto prodígio que demonstrou, no correr dos anos, ser uma promessa plenamente cumprida, Mr. Van Morrison... Famoso por seu temperamento arisco, por sua postura de “eremita”, por suas raríssimas entrevistas concedidas e pelas enrascadas em que entra tentando explicar o sentido das próprias letras, o cara, com a discrição que lhe é própria, marcou época na música da 2a metade do século passado como poucos. “Sua influência entre os cantores-compositores de rock não tem rival algum a não ser aquele outro gênio legendário, Bob Dylan“, sugere a Enciclopédia do Rock da Rolling Stone, que comenta ainda que ecos de sua poesia vigorosa e seu estilo vocal fervoroso e apaixonado podem-se ouvir em ícones posteriores que vão de Bruce Springsteen a Elvis Costello, “enquanto a incansável musa do artista irlandês manteve-o prolífico e interessante até os anos 90”. Beck e Jeff Buckley são outros dos graúdos que nunca esconderam o quanto o estilo vocal de Morrison os influenciou como cantores.

Van Morrison, nascido em Belfast, Irlanda do Norte, em 1945, tornou-se uma das figuras cult mais fascinantes da história do rock. Difícil achar que rótulo se enquadra melhor a ele, que era ao mesmo tempo um cantor folk, um potente berrador de blues, um aficcionado pelo jazz, além de ter um background musical lotado de canções folclóricas irlandesas e temas gospel. Antes de Astral Weeks, primeiro álbum clássico de Van Morrison, e o maior de todos eles (apesar de ser uma boa briga contra Moondance pelo título de Disco Mais Perfeito...), Van Morrison estava longe de se um desconhecido. Morrison já tocava com bandas irlandesas desde sua adolescência e já tinha começado a marcar a história da música pop com sua primeira banda de power-blues, o Them. E já havia composto dois singles de sucesso – “Gloria” e “Brown Eyed Girl”.

Mas nada preparava o mundo para a chegada deste álbum, que se tornaria objeto de culto através de todas as décadas que seguiram (e seguirão...) e é até hoje considerado por críticos de renome uma das maiores obras-primas da história do rock. Morrison o gravou em 2 dias apenas, acompanhado por numerosos músicos de jazz a quem dava instruções mínimas, deixando-os entregues a improvisos tipicamente jazzísticos.

Astral Weeks é um daqueles itens de culto intenso principalmente por parte dos críticos de rock e demais entendidos, enquanto o público em geral, muitas vezes, desconhece qualquer outro Morrison que não seja o mais famoso deles – Jim, do The Doors, que obviamente não tem nenhum parentesco com seu xará-de-sobrenome Van. O grande Lester Bangs, por exemplo, chegou ao ponto de, numa frase bombástica muito própria sua, chamar Astral Weeks de “o disco de rock mais importante na minha vida até hoje” (era 1979), e, após comentários auto-biográficos sobre um certo período de fossa que estava passando, arrematou com ótimas percepções sobre o álbum:

“...ele [Astral Weeks] assumiu na época a importância de um farol, uma luz nas praias longínquas das trevas; e mais, era uma prova de que havia ainda algo a ser expressado artisticamente além de niilismo e destruição. (...) Parecia que o sujeito que compôs Astral Weeks sofria de uma dor terrível, uma dor que os discos anteriores de Van Morrison haviam apenas sugerido; mas, como os últimos álbuns do Velvet Underground, havia um elemento redentor na escuridão reinante, uma compaixão suprema pelo sofrimento dos outros e um raio de pura beleza e estupefação mística envolvendo o coração da obra.” (Reações Psicóticas, pg. 22).

Outro excelente crítico musical, o inglês Simon Reynolds, comenta que “o álbum é uma visão, tanto exultante quanto atormentada, do paraíso perdido e talvez, só talvez, reencontrado”.

“De todos os artistas a emergir da era psicodélica e de seu legado, Van Morrison e o Pink Floyd são os mais fixados na nostalgia do Éden. (...) Suas canções reiteram de maneira obsessiva imagens árcades: ‘a criança virgem descalça’; vagar por jardins opalescenetes de chuva nevoenta; saciar uma alma sedenta com água pura da nascente; estar envolto na ‘tranquilidade do silêncio’... E, assim como a poesia de Morrison exalta iridescência e fluidez, sua voz e música personificam tais qualidades. Seu vocal scat-soul é um riacho de fala ininteligível; a música é uma corrente borbulhante, repleta de curvas folk, jazz, blues e soul, cheia de espirais e redemoinhos, cintilizações e manchas solares sob os cílios.” (in: Beijar o Céu)

Essa “saudade do Éden” fica clara no ambiente emocional que besunta todo Astral Weeks (“o reconhecimento da inalterável falta de um lar e a luta contra isso” é a essência do melhor trabalho de Van Morrison, diz M. Mark). Poucos momentos são mais emblemáticos disto do que quando Van canta: “i’m nothing but a stranger in this world / i’ve got a home on high...”. A mistura da melancolia por não ser nada nesse mundo a não ser um estranho, e a esperança radiosa do reencontro futuro de um Lar, é o que torna essa canção – e o álbum em geral... – um originalíssimo e estranho mélange de tristeza e luz, de angústia e radiação, algo que nos sentiríamos tentados a chamar, usando a expressão de Victor Hugo, de melancolia feliz...

Simon Reynolds, grande intérprete da obra, nota, por exemplo, que “em ‘Beside You’ Morrison deseja ansiosamente a proximidade absoluta, o êxtase sem estranhamento da intimidade pura, que talvez só seja experimentado mesmo no peito materno ou na suspensão envolvente do útero. Ele anseia ‘nunca, nunca se perguntar por quê’ e voltar ao reino de onde dúvida e medo foram banidos”.

Astral Weeks é uma das obras mais profundamente espirituais já a dar o ar de suas graças no reino vastíssimo disso que chamamos de “música pop”. Dentre os álbuns clássicos dos anos 60, este é o que se encontra mais distante do espírito da cultura de massas e da reprodutibilidade técnica espantosa que é marca da indústria fonográfica na época. Apesar de ser possível, como tentou fazer o Lester Bangs, sugerir que Astral Weeks é também o produto de uma era (a ressaca que chega batendo forte depois da orgia prolongada dos anos 60), o disco é frequente e insistentemente descrito com o adjetivo, extremamente adequado, de atemporal.

As “preocupações espirituais” de Van Morrison sempre estiveram em primeiríssimo plano em sua carreira, relegando todo o resto a um status secundário. Fama, grana e groupies nunca pareceram dizer muita coisa para ele. Valia muito mais a pena “esquadrinhar o trabalho de místicos, videntes e poetas em busca de pistas” que apontassem para o tal do Éden perdido – como nota muito bem Simon Reynolds. Em suas músicas o ouvimos sailing into the mystic e “procurando por algum tipo de fé que lhe permita sentir-se em paz onde estiver”.

Essas temáticas ditas “místicas” não estão presentes somente neste álbum, mas impregnam e atravessam toda a discografia do cantor no anos 70, como comenta Simon Reynolds: “Seus álbuns de meados dos anos 70 são atormentados por um sonho com a Caledônia, ‘uma terra antiga, que soa como um lar para ele, uma terra onde seus ancestrais começaram tudo de novo e onde gaitas de fole deram à luz o blues’, nas palavras de M. Mark. A Caledônia tem a mesma função mística na cosmologia de Morrison que Sião ou a Áfria tem para os rastafáris ou a ‘velha terra dourada’ tem para a Incredible String Band: é um reino afortunado, onde a inimizade foi abolida e todos os homens são irmãos.”

O sucesso comercial não veio, até porque Astral Weeks era um disco excessivamente contemplativo, intenso e original para que pudesse ser tocado para vastas multidões (com exceção de canções mais palatáveis e radiáveis como “Sweet Thing” e “The Way Young Lovers Do”). Mas a gravadora Warner sempre considerou Van Morrison como um artista de longo prazo, que teria uma longa carreira ao invés de um compositor de singles explosivos. Era apenas o começo de uma brilhante, longa e prolífica carreira com um disco impressionista, fascinante, hipnótico, mesmerizing...

Mais que um disco, Astral Weeks é quase um documento de uma viagem mística, de uma jornada astral em domínios bem acima da terra... O som que faz uma alma em peregrinação por vários estágios do espírito, buscando a salvação, penando e gemendo por ela... O que faz com que Astral Weeks seja um álbum tão especial, tão peculiar e tão atemporal na história da música é essa espécie de halo de luz que parece circundá-lo. Se um disco pudesse ser um anjo com uma auréola dourada reluzente sobre a cabeça, esse disco seria Astral Weeks.

DOWNLOAD (mp3 de 192kps - 74 MB - 8 músicas):
http://www.mediafire.com/?3zygianrva5

sábado, 15 de março de 2008

:: criaturas da indielândia ::




:: CIDADÃO INSTIGADO, "E o Método Tudo de Experiências"
por ALEXANDRE MATIAS (originalmente publicado no Trabalho Sujo)

Levada de conga e violão nordestino começam, sedutores, a tentar uma certa aproximação. "O que é que tu quer de mim? Que voz é esta?", pergunta, carregada de seu característico sotaque cearense, a voz do guitarrista e vocalista Fernando Catatau, líder do grupo Cidadão Instigado, acompanhado do assobio sinistro de um teclado retrô. "Que silêncio é este? Por que tu não fala o que estais pensando? Não quero estar recuando o meu sentimento, a minha alegria. Eu sinto que você está chegando mas se recusa a aceitar". O som desenha um boteco mal freqüentado, à meia luz, TV ambiente ligada ao fundo só para dar uma mínima sensação de vida, ainda que apenas úmida e viscosa. O pano sujo sobre o balcão, o copo solitário de cerveja, o display para maços de cigarro vazio, a mesa de lata riscada com nomes, palavrões e datas, os azulejos que um dia foram brancos. Tudo inspira o desespero de uma latinidade decadente, caixas de cerveja amarela usadas para esconder o mofo da parede dos fundos. Não dá pra saber quem é o predicado da canção: uma pessoa, um vício, a própria identidade.

Uma guitarra elétrica crua, sem efeitos especiais (a imagem que me vem à cabeça são aqueles velhos amplificadores Giannini, com botões do tipo "tremolo" e "vibrato"), corta o ar ativando baixo e bateria em um melancólico e quase almodovariano bolero, fazendo a consciência do protagonista - provavelmente em algum ponto entre a ressaca e o arrependimento, mesmo ainda sendo noite - tornar-se a banda mais triste do mundo, nos colocando em algum ponto entre "Amarelo Manga" e "Um Drink no Inferno". "Acho que estou te esperando", entoa quase inocente, num refrão que sorri, serviçal, por mais uma chance, "o que você talvez já saiba. É, você pode estar certa, talvez não valha apenas dizer mais nada. Mas eu te espero mais perto, estou morrendo e tenho medo de só pensar em você. Te encontra logo com a distância antes que ela te dizer que já é tarde demais".

E sem sermos perguntados estamos no meio de Cidadão Instigado e o Método Tufo de Experiências, tributo a todos os tipos de conflitos pessoais pelo qual Catatau e companhia nos conduzem em seu segundo disco. Terceiro, se contarmos a primeira e pouco ouvida demo, CDzinho de cinco faixas que poucos privilegiados tiveram o prazer de desfrutá-lo ainda em 1999. Ainda no Ceará, a banda dava a ignição em uma inesperada cruza de jazz rock com trovadorismo nordestino e tempero de rádio AM. Longe de apocalipses mais ao leste, de artistas como Cordel do Fogo Encantado, Zé Ramalho e Cabruêra, a intensidade épica do Cidadão vem do apreço dos músicos por seus instrumentos (parente, enviesado, do Cordel de Lirinha, que, optam pela estrada acústica e percussiva, enquanto os cearenses seguem a trilha elétrica e harmônica) que culmina no amor de Catatau por seu instrumento. Imerso entre Johns McLaughlins, Daves Gilmours e Lannys Gordins, a guitarra de Fernando é setentista por definição, virtuosa por natureza e tortuosa, primeiro sentimentalmente, depois como manifesto.

A guitarra torta e passional do Cidadão Instigado por excelência acaba funcionando como metáfora para o disco, tanto em termos temáticos quanto instrumentais. O Método Tufo é um disco sobre o estranhamento, partindo do ponto de vista mais evidente quando se trata do líder do grupo: o fato de ser, na prática, mais um nordestino em São Paulo. Usa diferentes ângulos para mostrar como é se sentir alheio à normalidade em uma cidade cuja normalidade parece imitar a morte, insistindo na fórmula, na aparência, na passividade, na submissão.

Musicalmente, aponta para o quarto de empregada e para a coleção de discos do tio hippie. O tom ao mesmo tempo sóbrio e sombrio que aquela guitarra impõe à qualquer intervenção que se proponha. Tanto que já tocou ao lado da Nação Zumbi, do Hurtmold e do Los Hermanos, sempre impondo seu estilo pessoal, seu timbre agudo e dedilhado torto, nunca alheio a cena alguma. E é justamente sobre o fato de os outros lhe considerarem alheio que começa o discurso que prevalece em todo o álbum.

"Quem pode explicar a razão de pinto de peitos ter nascido com o bico preto? Talvez Deus tivesse um motivo ao perpetuar este ato por mais que pensem ser um defeito", pergunta em "O Pinto de Peitos", "um defeito de Deus é sempre perfeito". "Eu não sei o que falar sobre as estrelas que povoam o meu céu, que brilham e brilham, mas não me dizem nada", canta na bêbada "Noite Daquelas".

"Fale para mim, por que eu lhe incomodo tanto? Será que são as minhas sobrancelhas grossas ou serão as minhas tortas? Será que a minha voz fanha polui a tua sonoridade sobre-humana?", ironiza feliz por saber como a música termina, em " Apenas um Incômodo", "ou será simplesmente por que eu me aceito assim e até gosto de mim? Eu sei que eu sou meio empenado e até um pouco desafinado. Mas eu não escondo e não me engano e se você me chamar de paraíba ou baiano não vai me soar estranho!".

A música continua mas logo perde seu tom dócil e volta à tensão inicial do disco encarando o ouvinte. "Pois eu sei que aos teus olhos/ Eu sou apenas um incômodo/ Que veio do nada para empestar o mundo", a voz denuncia que o clima da canção mudou, descambando para um instrumental cáustico que aponta para trios tão diferentes quanto Jimi Hendrix Experience, Built to Spill e a banda que acompanhava Arnaldo Baptista no disco Singin' Alone. "Mas escute/ Eu que vim do nada/ Não tenho encantos, nem correntes/ Só tenho um sonho que é só meu/ E duas palavras para dizer neste instante: ME AGÜENTE!".

O progressivo é outra assinatura musical do grupo e não é só a marcha "Os Urubus Só Pensam em Te Comer" que remete ao Pink Floyd (especificamente, o biênio 78/79). Ela é apenas uma das músicas que citam bichos ("Todas as vacas estão velhas/ Todas as vacas estão quase lá/ Todas as vacas estão loucas/ E abatidas em seu leito de morte" - as vacas, como os Animals de Roger Waters, chegam até a mugir) e cujo clima tenso e desconfiado é repetido, à prog-blues como o velho Floyd, dentro de qualquer gênero musical que aparecer: rock pesado (em "Calma!"), música latina ou gangsta rap (na mesma "O Pobre dos Dentes de Ouro", ótica), reggae ("Apenas um Incômodo"), cantiga de lavadeira ("Chora, Malê", que começa elétrica, cai para o folclore e termina ambient, vazia, ecoando batida policial - perfeita) e shuffle de beira de estrada ("Noite Daquelas", cômica e crônica)

O holofote central no entanto, divide-se entre a faixa de abertura ("Te Encontra Logo...", comentada no início), a balada ("O Tempo") e a belíssima "Silêncio na Multidão". "O Tempo" é, de longe, a melhor música do disco - uma letra amarga e madura, conformada com a idade, que não funcionaria lindamente tanto no repertório de Roberto Carlos, Odair José, Caetano Veloso, Nervoso ou Mombojó. "Mas o tempo é um amigo preciso que fica sempre observando aquele instante em que alguém tentou se aproximar", canta, em falsete, acompanhados por vocais de apoio de sonho. O desabafo falado de Catatau é daqueles momentos que nem é bom tentar passar pro texto para não perder toda sua magia atemporal. "Às vezes choro pois sei que não posso deixar que o passado invada meu mundo", isso tocado ao vivo deve ser fodaço, mesmo sendo intensamente e desavergonhadamente brega.

Já o épico "Silêncio na Multidão" é um exercício de hipnotismo jazz-funk que, disfarçada de crônica social. "Aqui estou eu, há meia hora parado no cruzamento da Brigadeiro Luís Antônio com a Avenida Paulista", narra falando, fingindo-se bardo, sobre uma monótona cadência reminescente instrumental Doors. "Interessante, né? Todos os dias em milhares de lugares milhares de pessoas se cruzam, mas não se falam, pois não se conhecem e nem ao menos se importam com isso. Mas é apenas um jogo de espelhos e, mais adiante, ele finge ver "um mendigo barbado" que "simplesmente pára e grita um grito de liberdade para a multidão, pois ele não agüenta viver sozinho na escuridão". O grito do mendigo (a imagem que o próprio Catatau, ele mesmo barbado, imagina que os outros façam dele) é não só todo o Método Tufo como um refrão emblemático e cético, que vem logo a seguir.

"Eu vejo as pessoas que passam por mim, que falam, que ralam, que gritam em agonia e solidão", canta emocionado, "dói no coração ver meu povo silencioso". O solo bluesy ressurrecta o mesmo timbre de uma das peças centrais do primeiríssimo disco, a demo de 99, a instrumental "Poeira". A crítica é simples: a lógica da cidade grande está matando o melhor do brasileiro. E o disco acaba funcionando como o grito do mendigo. Ele não pede para pararem o mundo - ele já desceu e chora por nós.

O que mais impressiona no disco, além de seu fio condutor progressivo, é a sua sintonia com o momento robertocarlista que vivemos. Mais do que qualquer outro contemporâneo seu, Fernando Catatau insiste em uma linha evolutiva que vai para longe da fila bossa nova, Tropicália, canção de protesto, MPB ou o vasto cânone do samba desintelectual. Tateia por um universo passional e adulto, longe da rebeldia ou do prazer, da saudade e do êxtase, da miséria física, social ou espiritual. Trilhando os passos do Rei, ele faz o ponto de intersecção entre o "Prato de Flores" da Nação Zumbi e a indiesmo MPB do Los Hermanos, passando por aquele velho rádio de estante que o dono do bar deixou ligado depois que o jogo acabou e que, de repente, começou a tocar aquela música...

DOWNLOAD (192kps - 69MB - 10 músicas - 50min):
http://www.mediafire.com/?mmb92ccr1gb

quarta-feira, 12 de março de 2008

:: Kyuss ::


KYUSS
"Blues For The Red Sun” (1992)

O SOM ESCALDANTE DO DESERTO CALIFORNIANO
Rock pesado e viajandão, guiado por uma guitarra malandramente ligada num amplificador de contrabaixo: ainda não inventaram nada parecido com Blues For The Red Sun, álbum definitivo do Kyuss

- Por José Fávio Júnior,
na Showbizz de Julho de 2001
(seção “Discoteca Básica”)

O Velvet Underground foi um grupo que, durante seu pequeno período de existência, passou quase batido. Hoje é referência para 9 entre 10 artistas indie/lo-fi. Disse um crítico americano que o Kyuss é o Velvet Underground de sua seara. Só poderemos comprovar daqui umas duas décadas, mas a tese é boa.

Formada na cidade californiana Palm Desert, a banda durou cerca de 6 anos (1990-95) e lançou 4 álbuns. A época é relativa à adolescência do guitarrista Josh Homme, que fundou o Kyuss na tenra idade de 16 anos, ao lado do baixista Nick Oliveri (que tinha 17), do vocalista John Garcia e do baterista Brant Bjork (hoje no Fu Manchu). Ele teve a puberdade dos sonhos de qualquer jovem roqueiro: terminou o colegial, viajou o mundo tocando, foi chamado de deus e, quando o lance ficou repetitivo e chato, saiu do mundo do rock, entrou na faculdade e arrumou um emprego de adulto. (Mais tarde, graças às pressões dos chapas do Screaming Trees, com quem ele tocava esporadicamente, Josh montou o Queens Of The Stone Age e se deu ao luxo de convidar Mark Lanegan, ex-vocalista do ST, para integrar seu grupo – o convite foi aceito em maio de 2001.)

Foi na turnê do álbum de estréia, o cru Wretch, que a banda conheceu seu quinto membro. Chris Goss, ex-integrante da seminal Masters Of Reality, chapou com a performance e se tornou o responsável por toda a produção do Kyuss. Aquele hard rock, ora bem lento, ora bem rápido, com muito groove e quase sempre viajandão, precisava de alguém que soubesse fazer o solo tremer na mesa de som.

Josh plugava sua guitarra Ovation UK II preta num amplificador de baixo, a afinava o mais grave possível, pisava no fuzz e saía compondo riffs turbinados com a urgência de um garoto que acabara de tirar a habilitação para dirigir. É por isso que a sequência inicial de Blues For The Red Sun, com “Thum, “Green Machine”, “Molten Universe” e “50 Million Year Trip (Downside Up)”, cheira a estrada empoeirada. O grupo, que no início de carreira (quando se chamava Sons of Kyuss) promovia grandes festas no meio do deserto californiano usando geradores, onde tocava por horas a fio, transporta o ouvinte para esse ermo. Quente, seco, duro. Mas com um suingue atmosférico quase sensual, culpa do baixo do então cabeludo e desbarbado Nick Oliveri – substituído por Scott Reeder na turnê do disco. “50 Million...” é o maior exemplo: um rock que dá vontade de balançar a cabeça e a cintura ao mesmo tempo. Depois dela vem a filosofia de “Thong Song”. “Meu cabelo é compridão / Nenhum cérebro, só músculo / (...) Eu odeio música devagar”, canta Garcia, sem a menor culpa, como que sorvendo goles de cerveja entre os versos. Das 14 faixas, apenas oito possuem letra. Existe uma preocupação muito grande com o instrumental, vinhetas e introduções, como acontece em “Freedom Run” (7 minutos e meio de psicodelia e “lesação”).

Dave Grohl,. Billy Corgan, Mellisa Auf Der Maur e muita gente boa da cúpula do rock bota Blues For The Red Sun entre os dez discos da vida (há os que preferem o abusado Welcome to the Sky Valley, com suas três suítes musicais, cada uma dividida em várias partes). Um pouco da magnitude do Kyuss pode ser medida pela qualidade das bandas que excursionaram junto: Faith No More, Smashing Pumpkins, Ween... Ver Josh tirando aquele som lindo era (e sempre será) uma experiência mais do que incandescente.

DOWNLOAD (54MB):

terça-feira, 11 de março de 2008

:: Dead Kennedys ::

:: DEAD KENNEDYS – “Fresh Fruit for Rotten Vegetables” (1980)
por André Barcinski (Showbizz / Março de 2000)

Nos EUA de Ronald Reagan, era preciso peito para batizar uma banda de Kennedys Mortos. Imagine alguém entrar numa loja no Brasil e dar de cara com um disco da banda Fernadas Montenegros Esquartejadas ou Algozes do Frei Damião. O choque seria o mesmo. E Jello Biafra queria mesmo chocar. Quando ainda era conhecido por Eric Boucher, o rapaz já era revoltado: contra o governo, contra os direitistas, os militares, os yuppies, a sociedade de consumo, o rock.

Depois que se mudou para a liberal São Francisco, no fim dos anos 70, Eric resolveu expelir todo esse ódio em forma de música. O resultado foi o Dead Kennedys. Seu primeiro LP, Fresh Fruit for Rotten Vegetables, caiu na cena californiana como uma bomba atômica. Até então o punk americano tinha tradição de bandas festeiras, tipo Circle Jerks e Ramones. Política não era o forte. Não havia um Clash ou um Sham 69 na terra do Tio Sam.

Mas Jello e seus colegas, o guitarrista East Bay Ray e o baixista Klaus Flouride, mudaram tudo isso. Fresh Fruit... foi o primeiro manifesto anarquista punk americano. Com sua voz de personagem de desenho animado, Jello conclamava o povo a matar os pobres (“Kill The Poor”), linchar os síndicos (“Let's Lynch The Landlord”), tomar drogas (“Drug Me”), roubar correspondência (“Stealing People's Mail”) e visitar o Camboja (“Holiday in Cambodia”). Falava também de guerra química, golpes militares e conspirações direitistas. Tudo isso embalado por uma ironia corrosiva e por uma explosiva combinação de punk, surf music e experimentalismo.O Dead Kennedys nunca se encaixou na teoria simplista de que punk se faz só com dois acordes e um pulmão forte. Suas músicas têm arranjos elaborados e mudanças inesperadas de ritmo e andamento.


Jello colheu exatamente o que plantou: discórdia e incompreensão. Foi processado por obscenidade, teve discos recolhidos, brigou na Justiça e incomodou muita gente. Era uma mosca na sopa da sociedade americana, um câncer – necessário. Jello levou o lema “faça você mesmo” ao extremo: montou a própria gravadora , a Alternative Tentacles, e lançou todas as bandas de que gostava. Chegou a candidatar-se a prefeito de São Francisco, propondo que os policiais usassem nariz de palhaço. Teria o meu voto, fácil.

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segunda-feira, 10 de março de 2008

:: Steely Dan ::



:: STEELY DAN - "Pretzel Logic" (1974)

Com uma seleta legião de fanáticos seguidores de seu aclamado "Pop Perfeito", o Steely Dan é uma ilha de bom gosto no mundo da música de consumo. Com um molho especial, calcado no melhor do Jazz, os melhores músicos de estúdio do planeta e composições do nível de um Cole Porter, produziu uma dúzia de discos antológicos que deram a diretriz de quase tudo feito no gênero a partir dos anos 70. (...) Com o nome tirado do romance "Beat Naked Lunch" de William Burroughs, o Steely Dan na verdade é o projeto de uma dupla de geniais compositores nova-iorquinos chamados Donald Fagen (1948) e Walter Becker (1950) que se conhecem desde os tempos de colégio. Eram jovens suburbanos típicos que passavam o dia estudando e as noites viajando com muito Charlie Parker, Duke Ellington e John Coltrane enquanto se entupiam da melhor literatura beat underground como Kerouac, Corso, Ginsberg etc... Depois de inventarem uma multidão de bandas com nomes estranhos e tentarem a cena teatral da Broadway, se mudam para o Brooklin e conhecem o produtor Gary Katz, que propôs a formação de uma banda pop para dar vazão ao excesso de sofisticação da música da dupla e ganhar um qualquer com isso. - WHIPLASH!

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Antes de formarem o duo Steely Dan, Donald Fagen e Walter Becker eram compositores para a ABC, tendo escrito êxitos para artistas como Barbara Streisand. Depois de explorrem a fundo o seu som em Can't Buy a Thrill, e de o elevarem a outro nível em Countdown To Ecstasy, o par regressou às coordenadas Tin Pan Alley. Seguindo a fórmula dourada do pop - as canções de 3 minutos - o duo decidiu jogar ironicamente em termos de estilo e gênero. O resultado foi Pretzel Logic, um álbum que se converteu em disco de platina.

A primeira canção define o tom do álbum. "Rikki Don't Lose That Number" é uma comovente história de amor não correspondido. O tema oscila entre um samba ligeiro e uma balada para piano, até o sensacional solo de guitarra de Jeff 'Skunk' baxter disparar numa linha de country folk californiano exatamente no meio da canção. Seguindo o mesmo rastro, "Any Major Dude Will Tell You" é iluminado por raios de sol de Orange Country.

Mas o grupo não se tinha perdido a sua característica mordaz. "Monkey in Your Soul", quase um cruzamento entre Noel Coward e Stax, é uma maliciosa carta escrita com tinta venenosa, enquanto a petulância ferida da inveja é tratada com um humor negro em "Through With Buzz".

O disco também se destaca pelos seus engenhosos pastiches. O caráter desfiante dos solitários adquire um dinamismo digno de um filme policial em "Night By Night", enquanto o homicídio de "With a Gun" bem poderia fazer parte do argumento de um filme dos irmãos Coen. A festiva "East St. Louis Toodle-Oo" merece ser destacada pela steel guitar tocada ao gênero ragtime. - 1.001 DISCOS PARA OUVIR ANTES DE MORRER

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DOWNLOAD (mp3 de 192kps - 11 músicas - 46MB):
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terça-feira, 4 de março de 2008

:: os 10 melhores dos anos 60...- #06 ::

[6º]

THE JIMI HENDRIX EXPERIENCE
Electric Ladyland (1967)

- por Eduardo Carli de Moraes -


A aparição de Jimi Hendrix, comparável a de um monstro mitológico que emerge d'um pântano coberto de algas e lama, soltando fogo pelas fuças como um vulcão humano em erupção (&*%$#@!), foi um dos marcos supremos do rock psicodélico americano em meados dos '60. E seu primeiro álbum junto ao Experience soava tão revolucionário e explosivo que garantiu para o negão, de cara, o status de um dos guitarristas mais versáteis e virtuosos da história. Poucos símbolos na história da guitarra são mais poderosos do que este: aquele garoto canhoto com seus cabelos black power em desalinho, portando roupas coloridas tipicament hippies, empunhando sua Fender Stracoster virada de cabeça pra baixo, por vezes até fazendo graças como palhetar com a língua, tocar o instrumento nas costas ou botar fogo nele ao fim de shows que, mesmo sem esse gran finale teatral, poderiam sem dúvida merecer o adjetivo “incendiários”... O tamanho do mito e a vastidão das imagens icônicas poderiam soterrar a música e o artista – mas não foi o que aconteceu; a música de Jimi Hendrix vive!

A história colocaria sobre a cabeça de Jimi Hendrix a coroa quase unânime de melhor guitarrista de todos os tempos, aquele que gerou uma profunda impressão sobre músicos de funk e black music (como Sly Stone e George Clinton do Funkadelic), de rock pesado (como Eddie Van Halen e Tom Morello, do Rage Against The Machine), até mesmo de mestres do jazz (como Miles Davis, que planejava gravar algo em contribuição com ele). “Na altura em que Are You Experienced? foi lançado, Jimi Hendrix (americano natural de Seattle que estava expatriado no Reino Unido) já havia enganchado três singles no Top 10 Britânico (“Hey Joe”, “Purple Haze” e “The Wind Cries Mary”) e havia feito um show inesquecível no Festival Pop de Monterey, no Canadá. O êxito na América foi menor, o que não impediu o disco de ser o 15٥ mais vendido de toda a década de 60, segundo a RIAA (4 milhões de cópias).

Criador de alguns dos riffs mais clássicos da história do rock – “Purple Haze”, “Foxy Lady” e “Crosstown Traffic”, por exemplo – Hendrix fez nos anos 60 um som de um peso e uma força incomuns para aqueles tempos, sendo um precursor direto do hard rock que viria na década de 70 guiado pelo Led Zeppelin e pelo Black Sabbath. Sua original mistura de blues clássico (presente em “Red House”, um dos destaques de seu disco de estréia), sonoridades psicodélicas e grooves funkeados influenciou toda uma geração e “sua imagem como um voodoo child psicodélico conjurando forças incontroláveis tornou-se um arquétipo do rock” – como diz a Enciclopédia da Rolling Stone.

Mas não só como guitarrista Jimi fez história, já que seus talentos como compositor e como cantor não são nada desprezíveis. “Hendrix também se revela um exímio vocalista no modo como anima as canções de amor, luxúria, viagens interestelares e desorientação toxicômana”, como comenta Gene Sculatii. Sua carreira foi literalmente meteórica – sua primeira banda, o power trio Experience, só sobreviveu por três álbuns; sua segunda banda, a Band Of Gypsys, se desfez após algumas apresentações ao vivo e não chegou a deixar um disco de estúdio; e, claro, a vida do cantor e guitarrista foi tragicamente interrompida em 1970 com sua morte acidental. Sua influência, porém, permanece ecoando e repercutindo.

Escolher um álbum de Hendrix como o melhor de sua carreira é tarefa das mais árduas, mas Electric Ladyland parece ser a melhor pedida. Are You Experienced? pode ter tido um impacto maior na música pop, mas seu Electric Ladyland, terceiro e último álbum com o Experience, reúne num só disco todas as vertentes e qualidades do caldeirão de feiticeiro hendrixiano. É o mais ambicioso de seus álbuns: pensado para ser um LP duplo numa época em que essa era uma idéia ainda excêntrica, continha músicas quilométricas (como a versão blues de “Voodoo Chile”, que ultrapassa os quinze minutos de duração), longas pirações psicodélico-atmosféricas que certamente soavam ultra-vanguardistas nos anos 60 (como “1983”, que passa dos treze minutos de duração), pop psicodélico altamente beatle (“Little Miss Strange) misturado com ataques guitarrísticos que beiram o hard-rcok (“Crosstown Traffic”).

É um álbum que merece tranquilamente o adjetivo de “épico”. É uma odisséia musical de um músico extremamente ousado e aventureiro, no cume de sua inspiração. A ambição de Electric Ladyland às vezes pode soar desmesurada, mas é uma ambição bem diferente daquela que moveria as punhetas progressivas que começariam a chatear o mundo na década seguinte. É a ambição de um músico extremamente versátil, que caminha com facilidade pelos mais diversos idiomas da música popular, nos dando a nítida sensação de que não havia nada que ele não pudesse fazer. É sentar no magic carpet criado pelas ondas sônicas de Hendrix e embarcar nessa longa, estranha e magnífica viagem final do Experience, pelos prados e pântanos de algum paraíso da psicodelia que podia ser chamado Wonderland ou Terra do Nunca, mas acabou apelidado de Electric Ladyland...

DOWNLOAD (mp3 de 160 kps - 16 músicas - 85MB):
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sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

:: Gun Club

:: THE GUN CLUB - “Fire Of Love” (1981)

Como surgidos do nada, os pioneiros do punk psuchobilly de Los Angeles chegaram com um álbum de estréia que ofuscou os seus contemporâneos californianos e foi fonte de inspiração para os White Stripes e muitas outras bandas de garage do século 21. O som é tosco, as letras frequentemente psicóticas e as canções... as canções são algumas das melhores do rock norte-americano.

A princípio escolheram o nome Creeping Ritual. Pierce e o guitarrista Kid Congo Powers formaram uma banda em 1980 para tocar na cena punk de Los Angeles. Pierce exibia uma gama ampla de influências (sobretudo blues, com toques de country e rockabilly), criando uma mistura selvagem. Cantava, uivava, gritava em canções que estavam enraizadas no sul mais profundo, com referências à “caça aos negros” e ameaçando “vou te foder até morreres”. É evidente que isto poderia ter sido muito ofensivo, mas canta com um brio tão teatral que o ouvinte se apercebe que ele está apenas a atuar. Ou não.

Em qualquer caso, canções como “Sex Beat”, “She Is Like Heroin To mE, “For The Love Of Ivy” e “Jack On Fire” são rock intenso e as leituras que Pierce faz do country blues como “Preaching the Blues” e “Cool Drinks of Water” sugerem uma imersão na música que supera o tenicismo enfadonho de Eric Clapton ou Gary Moore. - do 1.001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer

DOWNLOAD (55 MB):
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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

:: Casey Dienel

:: WHITE HINTERLAND - "Phylactery Factory" (2008)

"Eu me pergunto às vezes se é responsabilidade do escritor e do artista tornar tudo claro para o leitor – ou se um pouco de material nebuloso é saudável e nos lembra de pensarmos por nós mesmos. Falando geralmente, eu me enquadro nesta última categoria. Eu não me importo de me sentir desorientada se isso me faz questionar as coisas – e acho que como uma cultura nós deveríamos ser muito mais céticos e questionadores daquilo que as pessoas fazem ou dizem. Não sei se isso soa cínico – mas eu acho que é saudável questionar algo antes de você digerir e arquivar na tua enciclopédia mental. Nós devemos isso à nossa psique! Eu sugeriria a qualquer pessoa que questione qualquer coisa que eu digo, inclusive isso que estou propondo agora. O que é que eu sei?!" - CASEY DIENEL, na entrevista exclusiva concedida a mim no ano passado.

Ela agora se esconde atrás do codinome White Hinterland, mas continua sendo a Casey Dienel apaixonante que fez um dos álbuns mais doces, poéticos e mansos dos últimos anos, o adorável Wind-Up Canary, meu disco favorito de 2006. Foi ele que me fez ficar tão fascinado com a pessoa e a obra dessa jovem americana a ponto de trocar com ela uma meia dúzia de e-mails e fazer uma entrevista que é das coisas que mais me dá orgulho nessa minha carreira de jornalista (ver http://www.rabisco.com.br/).


Era, pois, com muita expectativa que eu esperava o novo álbum de Casey pra ver se ela passava pelo teste do segundo álbum e se confirmava todo o talento que eu profetizava. E ela passa no teste com louvores! Pouco mudou de um álbum para o outro: a cantoria de Casey continua tímida e singela (em "Destruction of The Art Deco House", por exemplo, ela canta tão baixinho que mesmo ouvidos treinadíssimos no inglês sentem dificuldade em entender as palavras que ela murmura), o piano continua tocado com a atitude de uma indie-kid que gostaria de ser Thelonious Monk e as letras continuam com um irrestível sabor lúdico e literário que sempre foi um dos maiores charmes da música de Casey Dienel.

Esse Phylactery Factory, disco até um pouco mais difícil e vanguardista que o anterior, provavelmente não vai fazer o mínimo sucesso de público, nem mesmo gerar hype alguym nos círculos restritos do indie, como também não fez o álbum de estréia da moça. É verdade que há por aqui uma ou outra música mais acessível e grudenta - caso da viciante "Dreaming Of Plumb Trees", mas nada que soe extremamente radiável. Ela nem se importa com isso, na verdade, e não se incomoda nem um pouco com seu status ainda minúsculo dentro do panorama musical contemporâno.

Este é outro álbum sublime de uma cantora, compositora e pianista que tem tudo para ter uma longa e cultuadíssima carreira, mesmo que ela prefira manter-se discreta e longe dos holofotes por não ter a mínima vontade de trocar a vida pacata pelas turbulências da fama. Daria pra dizer que Phylactery Factory é daqueles discos que vai revelando seus encantos aos poucos, a cada nova ouvida, à medida que o poder dos versos e das palavras de Casey vai ganhando abrigo dentro de nossa alma... Mas seria dizer errado sugerir que os encantos estão assim tão velados: Casey Dienel é encantadora à primeira vista e à primeira ouvida, e só fica mais e mais encantadora quanto mais a conhecemos e ouvimos... Que me perdoem o excesso de doçura, mas são palavras de um homem apaixonado... :)

DOWNLOAD (mp3 de 192 kps - 78MB - 9 músicas)
http://www.mediafire.com/?v421ymmgdtc

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

:: Chris Cornell



:: CHRIS CORNELL - "Euphoria Morning"

Me desculpem se isso vai soar como excesso de fanatismo, mas eu, que passei a adolescência inteira headbanging com os discos do Soundgarden e que já cheguei a dar ao Superunkown a honra de estar entre os 10 melhores discos de rock de todos os tempos (!), numa listinha ingênua que fiz quando tinha uns 17 aninhos de idade e as cordas vocais estragadas de tanto berrar "Outshined" e "The Day I Tried To Live" e "Blow Up The Outside World", acho que Euphoria Morning é um dos discos mais subestimados da história do rock. Esse disco é fodaço, fodaço, fodaço.

Comprei esse álbum, original, logo que saiu, nem botando tanta fé assim que o Chris Cornell sozinho faria algo que chegasse aos pés do que fez frente ao Soundgarden e ao Temple Of The Dog, e hoje, um 5 anos depois, continuo achando Euphoria Morning uma obra-prima. Acho que é a melhor coisa que o mestre Cornell fez depois do fim do Soundgarden e que dá um pau em qualquer disco do Audioslave - e olha que eu não sou dos que maltrata com tomates o supergrupo que reuniu 3/4 do Rage Against The Machine tendo à frente o mais potente dos vocalistas do grunge. Gosto do Audioslave, bastante até (e "Original Fire" deve ser um dos sons de rock pesado mais empolgantes desta década!) - mas gosto muito mais de Euphoria Morning do que de qualquer disco do Audioslave e bem mais do que o segundo e desapontador álbum solo.

Que Cornell é um dos vocalistas de voz mais espantosamente poderosa e performance mais cheia de garra de sua geração não é segredo - e os clássicos álbuns em que deixou a marca de sua voz continuam fudidos de bom até hoje: especialmente Badmotorfinger e Superunkown do Soundgarden, e o Temple Of The Dog da banda-projeto de mesmo nome, que tinha em seu cast de estrelas vários músicos Pearl Jam...

Em Euphoria Morning, os anos de Soundgarden ressuscitam em músicas mais porrada como "Pillow of Your Bones" e "Mission" (que não fariam feio se estivessem em Superunkown ou Down On The Upside) ou na sombria e dolorida "Steel Rain" (quase um follow-up para o clássico das trevas "Black Hole Sun"). Já a faceta romântica e catártica de Cornell explode na lindíssima balada "When I'm Down", com um refrão inesquecível ("só te amo quando estou pra baixo / só estou perto de ti quando você está longe / mas uma coisa pra você manter em mente: estou pra baixo todo o tempo"). O cantor folk recluso e melancólico surge em "Sweet Euphoria", uma das coisas mais tocantes que já se fez com apenas um violão e um microfone. Já sua homenagem ao finado Jeff Buckley, "Wave Goodbye", que tem certos trechos em que o vocal de Cornell arrisca uns falsetes buckleyanos muito bem cantados, ultrapassa o mero status de música tributo e se transforma em algo universal sobre a saudade e a culpa. A letra inteira é linda e muito bem construída, mas alguns versos se destacam:

"Words get tangled on your tongue
and you stumble on your feet
when you miss somebody
And every hurtful thing you ever said is ringing in your ears
when you miss somebody"

Mas nada supera "Preaching The End Of The World", uma das músicas mais lindas e doloridas dentre todas que já ouvi. Nela, onde Cornell inicia com uma cantoria mansa, que beira o Thom Yorke, a fantasia do fim do mundo gera um anseio por um amor fatalmente efêmero. A performance apaixonada-desesperada de Cornell declamanado essa poesia sobre o amor em tempos de apocalipse prova o talento imensurável dele como cantor, compositor e artista. Certas pérolas poéticas chegam ao nível dum Dylan ou dum Leonard Cohen, como o lindo verso "we can share in every moment as it breaks" ou a estrofe:

"There'll be no commitment and no confessions
and no little secrets to keep
No little children nor houses with roses
Just the end of the world with me..."

Se antes desse álbum Chris Cornell já tinha lugar garantido no panteão dos mais idiossincráticos e vulcânicos dos vocalistas de rock das últimas duas décadas, ou mesmo de toda a história do rock pesado, depois de Euphoria Morning provou ser ainda mais: um compositor, um músico e um poeta que conseguiu, em vários momentos desse inspiradíssimo álbum, beirar a genialidade. Esse disco, apaixonante, arrepiante, aventureiro, poético e doloroso é Chris Cornell em plena forma. Um dos melhores álbuns solo já lançados por um vocalista de uma banda de grande porte.

DOWNLOAD (mp3 de 192kps, 74 MB, 14 músicas):

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

The Cars


[1978] The Cars

O disco de estréia dos Cars tem apenas nove músicas e dura pouco mais de meia hora, mas mesmo assim acaba sendo um perigo pra quem não tem tempo sobrando. Suas faixas são canções pop de rara perfeição, daquelas que grudam imediatamente no ouvido e nunca causam enjôo, nem depois de mais de duas décadas circulando pelas rádios.

The Cars nasceu em 1976 na cidade de Boston, quando Ric Ocasek e Benjamin Orr que vinham tocando desde o começo da década em bandas de baile, se estabeleceram de vez na guitarra e no baixo, respectivamente. Assim que deram as boas vindas a mais um guitarrista (o canhoto Elliot Easton), o tecladista Greg Hawkes e o baterista ex-Modern Lovers Dave Robinson, o grupo estava pronto para o sucesso.

Tão pronto que logo as primeiras gravações demos - feitas no porão de Ric - entraram no topo das paradas das estações locais antes mesmo de ter assinado contrato com algum selo.

Lançado em maio de 1978 pela Elektra Records, o disco não podia abrir de maneira mais explosiva, enfileirando logo de cara os três maiores êxitos de toda a história do grupo, "Good Times Roll", "My Best Friend's Girl" e "Just What i Needed". A banda costumava dizer que The Cars, o álbum, era seu verdadeiro best of. Com razão todas as nove faixas se tornaram sucesos radiofônicos e clássicos do pop-rock dos anos 80. Até as que não estouraram viraram hinos da geração new wave como "Moving In Stereo" usado na trilha de uma das mais marcantes cenas da comédia adolescente, Picardias Estudantis.

Todas as faixas foram compostas por Ric Ocasek, a partir de seu dom de agradar ao mesmo tempo rockeiros, modistas e modernos, colacando uma pitada de ironia e ingenuidade bublegum no carrancudo art rock da época. Apesar do instrumental quadrado e mecânico - importado da fase alemã de Bowie - e dos teclados típicos da new wave, a sonoridade se mantém atual através de suas melodias altamente assobiáveis e guitarras sempre em primeiro plano.

A estrada percorrida pelos Cars rendeu mais cinco discos, com destaque para Heartbeat City de 1984, e seguiu reta até 1988 quando Ocasek resolveu saltar e seguir a pé para se dedicar à sua carreira solo e ajudou a criar a identidade de bandas como Weezer (Ocasek produziu o primeiro disco da banda, o tão famoso Blue Album), Hole, Guided By Voices e Bad Religion. Em 97 lançou seu mais elogiado trabalho, Troublizing. Ben Orr que se revezava nos vocais com Ric, se arriscou em apenas uma obra solo de pouca repercussão e morreu em outubro de 2000.

Texto publicado na Rock Press de dezembro de 2000, por João Eduardo Veiga.

Foi através desse texto que conheci a banda e me apaixonei antes mesmo de ouvi-la, até que um dia encontrei uma edição alemã desse disco jogada num saldão a meros dez reais mas acho que se não o conhecesse eu compraria esse disco só pela capa. Ouvi até furar é claro e depois nem me surpreendi ao saber que Smashing Pumpkins e Nirvana já tocaram covers do The Cars.

Download: Sharebee - mp3 de 192 kbps - 48 MB

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

:: Sonics ::


:: THE SONICS

"The Sonics é uma daquelas bandas injustiçadas que nunca chegaram a estourar no seu país natal, mas que tiveram uma importância gigantesca, e que até hoje críticos não conseguiram decidir se eles foram "ancestrais" do "punk" ou do "grunge" (sendo que resposta óbvia provavelmente é "ambos"). Banda alternativa metida a porradinha adora dizer que foi influenciada, mesmo, é pelos Stooges. Na grande maioria das vezes, é mesmo. De Sonic Youth a Strokes, poucas bandas escapam disso. Bem, esta não só escapa, como foi "só" a que influenciou os Stooges... entre outras, do calibre de Cramps e praticamente toda banda que pipocou na região do Noroeste dos EUA. Então, The Sonics não é pouca m*, como você pode conferir ouvindo o som, não só por causa dos seguidores deles. Ainda hoje, com quase meio século de idade, suas gravações soam sujas e quem não estava avisado disso pode se impressionar. Não é sem motivo que o vocalista, Gerry Roslie, é insistentemente comparado a Little Richard: com gritos histéricos em músicas na maioria inspiradas em histórias de terror, somadas às guitarras distorcidas (ou como disse Andy Parypa, no Seattle Times em 84: "Se nossos discos parecem distorcidos, é porque eles são. Meu irmão (Larry) estava sempre fuçando nas caixas. Elas sempre estavam tipo overdrive... Ou ele estava desconectando os auto-falantes e esburacando eles com um furador de gelo. É por isso que a gente acabou soando como um trem quebrado."), as composições deles como The Witch, Psycho, Strychnine e Boss Hoss, mais do que "hits" da época, tornaram-se "crássicos" das bandas de garagem. Fora as composições próprias, a banda gravou diversos covers de, é claro, Little Richard, Chuck Berry e Bo Diddley..." - DYING DAYS


DOWNLOAD - "The Jerden Years - 1966-69"
pt 1 (faixas 1 a 15): http://www.mediafire.com/?7mhkmjj2ndp
pt 2 (faixas 16 a 30): http://www.mediafire.com/?0kidgl2azik

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

:: os 10 melhores dos anos 60...- #07 ::

[7º]


THE BAND
"Music From Big Pink" (1968)

- por Eduardo Carli de Moraes -

Antes de soltar este clássico álbum de estréia, um dos mais poderosos e originais debuts da história do folk-rock, a The Band era célebre “somente” como a banda de acompanhamento de Bob Dylan. Foi esta A Banda que forneceu a força elétrica bruta que Bob quis adicionar ao seu som folk a partir de Bringin’ It All Back Home, seu primeiro álbum que fugiu da sonoridade exclusivamente acústica e folky e arriscou-se no reino da eletrificação e da distorção.

Os músicos da The Band – na sua grande maioria de origem canadense - já estavam na ativa desde o começo dos anos 60, tocando com o cantor de rockabilly Ronnie Hawkins com o nome de The Hawks. Uma vez instalados no Greenwich Village em meados da década, acabaram chamando muita atenção de figurinhas graúdas da cena boêmia-artística efervescente de lá, inclusive de Bob Dylan, que estava à procura de um grupo que estivesse ao mesmo tempo profundamente enraizado na cultura americana mas que ao mesmo tempo tivesse uma atitude aventureira e ousada.

Contratados como back-up band para a primeira turnê rock and roller de Bob Dylan, a The Band acompanhou o mito de Outubro de 1965 a Maio de 1966, quase sempre frente a platéias de “folkies puristas” que soterravam os músicos debaixo de vaias e tomates. Bob Dylan, na época, era tido como o Traidor do Movimento Folk de Protesto por ter abraçado a eletricidade - e a the Band, coitada, acabou acusada de cúmplice no crime.

Após o acidente de motocicleta de 1966, tornando-se subitamente uma estrela reclusa, Bob Dylan fechou-se num porão com a The Band e ai começaram suas contribuições mais antológicas – que permaneçaram inéditas por muitos anos e foram lançadas só em 1975; são as famosas e cultuadíssimas The Basement Tapes. Só o fato de terem estado no mesmo palco que Bob Dylan em momentos cruciais dos anos 60 já serviria para colocar a The Band na história do rock – eles estavam lá, por exemplo, no célebre show no Royal Albert Hall, em 1966, quando Dylan sente uma certa animosidade do público folk mais purista em relação ao barulho extremo que saía do palco e, antes do início de “Like a Rolling Stone”, faz o singelo pedido à The Band: “Play it fucking LOUD!” O mito é atendido com prontidão.

Mas foi mesmo em 1968 que a The Band se tornaria uma banda de primeira grandeza na cena rocker mundial, livrando-se do estigma de estar em segundo plano em relação à Bob Dylan. Este, porém, é uma presença espiritual e uma influência musical inegável em Music From The Big Pink. Só lembrar que Dylan aparece aqui em várias facetas: é dele a linda e lamentosa balada “I Shall Be Released”, que fecha o álbum, e a co-autoria de outras duas canções, “Tears Of Rage” e “This Wheel’s On Fire”; é dele a pintura exposta na capa do álbum; e o próprio nome do disco faz referência à casa em Woodstock onde a The Band e Bob Dylan se conheceram e começaram suas jams em meados dos anos 60 – a “Big Pink”.

“Apesar de ter sido criado por quatro canadenses e um cara natural do Arkansas, Music From Big Pink é uma peça duradoura de ‘americana’, um acontecimento dos que marcam uma época e que parecia sintetizar um século de cultura americana”, diz Andrew Gilbert. “O quinteto afundou as raízes de seu som e suas letras no solo americano usando órgãos, violinos e bandolins em vez de guitarras elétricas carregada de efeitos.”

O álbum mostra-se extremamente coeso e bem estruturado para um banda que fazia sua estréia fonográfica “solo”, por assim dizer, e o quinteto parecia muito bem sincronizado, sem que o guitarrista Robbie Robertson chegasse a representar neste início o papel de líder que cada vez mais assumiria na sequência. Robbie comenta que modificou bastante seu estilo de tocar e sua estética musical na época do parto de Music From The Big Pink – saíram os solos de guitarra ruidosos e tocados com ira e vingança que ele tanto apreciava na juventude (“eu tocava guitarra como se estivesse com ejaculação precoce”, comentou sobre sua abordagem urgente e frenética do instrumento em tempos idos), dando lugar a algo mais doce, atmosférico e etéreo, com riffs “à la Curtis Mayfield”.

Já os vocais gritados e/ou grunhidos foram preteridos em prol de uma cantoria mais suave e uma harmonização mais mansa entre o vocal principal e os de apoio. A decisão de iniciar o álbum com uma música lenda e arrastada, com respingos de melancolia, era já uma originalidade digna de nota na época: “Tears Of Rage” tinha a intenção de ser um cartão de visitas provando ao mundo que estavam diante de uma banda tremendamente original. Já a clássica “The Weight” tornou-se um dos hinos tardios dos anos 60, utilizada com efeitos encantadores na trilha sonora de um dos filmes mais quentes da época – Easy Rider, de Dennis Hopper.

Nas letras de Robbie Robertson consegue-se notar o efeito da convivência com Dylan, cujo trabalho poético influenciou a “escolha temática, a construção formal e a imagética” de Robertson – suas letras tornaram-se menos diretas e mais misteriosas, moldadas com um esmero dylanesco que nunca soava como pastiche ou imitação barata. Robbie admite que estava fissurado também no trabalho de cineastas como Luis Buñuel, John Ford e Kurosawa na época, e tinha começado a se interessar por mitologia européia e nórdica, o que também entrou no caldo de suas influências com um peso semelhante ao de Dylan.


Assim que foi lançado, Music From The Big Pink recebeu críticas altamente favoráveis e foi entronizado por gente com opinião pra lá de respeitável como George Harrisson e Eric Clapton. O álbum passou longe de ser um sucesso de público, apesar de conter um dos maiores hits da The Band (“The Weight”), mas é reconhecido até hoje como um dos álbuns mais lindos, originais e atemporais da década de 60 – uma obra-de-arte esplêndida que o tempo não enferrujou e que revela cada vez mais encanto a cada nova ouvida.

No ano seguinte, 1969, o segundo álbum só consagraria ainda mais a The Band como uma dos mais talentosos e originais conjuntos de rock do mundo. A contribuição com Bob Dylan tornou-se um tanto mais escassa após os contágios mútuos constantes de meados dos anos 60, mas a The Band trabalhou novamente com Dylan várias vezes: foram a banda de apoio para o álbum Planet Waves; fizeram com ele uma turnê que geraria o álbum ao vivo Before The Flood; e fizeram uma aparição no show de Bob no Isle Of Wight de 1969.

Quando a The Band decidiu encerrar suas atividades em 1976, teve uma das despedidas mais chiques e inesquecíveis que uma banda de rock já teve a honra de possuir: no Dia de Ação de Graças, fizeram um show memorável ao lado de convidados de peso (além de Dylan, compareceram Neil Young, Van Morrison, Muddy Waters, Joni Mitchell, entre outros), registrado em filme pelo fã Martin Scorsese num dos melhores rockumentaries que existe – The Last Waltz. Homenagem digníssima para uma banda esplendorosa.


DOWNLOAD
(Music From The Big Pink remasterizado + 6 bonus tracks)
(mp3 de 192kps - 83 MB - 16 faixas - 1h):
http://www.mediafire.com/?7ykbftgqdeg

domingo, 17 de fevereiro de 2008

:: Nilsson & Lennon ::


:: HARRY NILSSON & JOHN LENNON - "Pussycats" [1974]

The relationship between Harry Nilsson and John Lennon is legendary. They were notorious booze hounds and carousers, getting kicked out of clubs for misbehavior and generally terrorizing L.A. during Lennon's "lost weekend" of 1974. They wanted to make an album together — hell, anyone working at such a peak would — and the result was Pussy Cats, a Nilsson album produced by Lennon. Almost immediately, Nilsson got sick, resulting in a ruptured vocal cord. Not wanting Lennon to stop the sessions, Nilsson never told his friend, stubbornly working his way through the sessions until he lost his voice entirely. These are the sessions that make up Pussy Cats, an utterly bewildering record that's more baffling than entertaining. Like many superstar projects of its time, this is studded with contributions from friends and studio musicians, all intent on having a good time in the studio — which usually means hammering out rock & roll oldies. In this case, it meant both Dylan's "Subterranean Homesick Blues" and the children's song "Loop de Loop," which gives a good idea where Nilsson was at. Through its messiness, Pussy Cats winds up showing how he and Lennon violently careened between hedonism and self-loathing. Of the new songs, the inadvertently revealing "All My Life" is the strongest, followed by the sweet "Don't Forget Me," yet this is more about tone than substance. It's about hearing Nilsson's voice getting progressively harsher, as the backing remains appealingly professional and slick. It doesn't quite jibe, and it's certainly incoherent, but that's its charm. It may not be as wild as the lost weekend itself, but it couldn't have been recorded at any other time and remains a fascinating aural snapshot of the early days of 1974. - AMG ALL MUSIC GUIDE

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:: apontando o dedo ::


:: WADO E O REALISMO FANTÁSTICO - "Terceiro Mundo Festivo" (2008)

Diz o Marcelo Costa no Scream and Yell: "Quem vem acompanhando a carreira deste catarinense (de nascimento, alagoano de coração) não irá ficar surpreso com a qualidade de “Terceiro Mundo Festivo”. O disco soa como uma continuação de “Manifesto da Arte Periférica” – sem negar olhares para “Cinema Auditivo” e “A Farsa do Samba Nublado”, este último, principalmente, nas letras – e abre muitas possibilidades para a música brasileira, desde sua sonoridade bem resolvida (o disco foi todo gravado em Maceió) até sua forma de distribuição gratuita. Neste momento de transição pelo qual a indústria da música está passando, Wado resume de forma perfeita a situação: “Perdemos os talheres e voltamos a comer com as mãos. Temos de nos educar, pois assim fica feio. Acho que todo trabalho deve ser remunerado, e acredito que aos poucos isso vai se restabelecer” (aspas do papo do compositor com Lucas Santtana).

“Terceiro Mundo Festivo” – assim como os três álbuns anteriores do compositor – está liberado para download no endereço oficial de Wado (www2.uol.com.br/wado) e surge com o primeiro grande lançamento da música nacional em 2008. A Internet apagou as fronteiras existentes em mapas entre as grandes capitais mundiais, está derrubando a toda poderosa indústria da música (a tendência é que mais e mais discos cheguem ao público sem passar por grandes conglomerados de entretenimento) e, apesar dos poucos recursos, as novas tecnologias estão permitindo o lançamento de álbuns de qualidade fora dos grandes centros. Periferia, você sabe, é periferia em qualquer lugar. “Terceiro Mundo Festivo” respira o sol de Maceió, namora os blocos africanos de Salvador, seduz São Paulo e Rio de Janeiro e faz festa no coração de todas as capitanias hereditárias para além (e avante) do meridiano de Tordesilhas. É um disco de inspiração terceiro-mundista e vocação cosmopolita, como são os de M.I.A., Timbaland, De Leve, Ali e Vieux Farka Toure, entre muitos outros. A inteligência a favor da arte derrubando fronteiras. Desde já, um dos grandes discos nacionais de 2008."

DOWNLOAD:
www2.uol.com.br/wado

:: made in Israel ::


:: AMIT EREZ [2007]

Não se assustem com o nome esquisito do sujeito (sei lá eu como se pronuncia!), com a capa meio sem graça de seu álbum (o primeiro!), nem com a proveniência excêntrica (ele é de Israel!) - e baixem sem medo. Porque Amit Erez fez um dos discos mais bonitos e singelos de 2007 com seu poderoso indie-folk que remete à Damien Rice, Jeff Buckley, Rufus Wainwright, Elliott Smith e Nick Drake. São 12 canções, todas em inglês e todas sublimes, em que esse desconhecidíssimo israelense ultra-talentoso demontra que veio pra tomar seu lugar de honra no panorama indie internacional. Por enquanto ninguém nunca ouviu falar, nem nos círculos indie mais restritos, mas quando ele virar coisa cult vocês poderão dizer: "Ouvi primeiro no Depredando!" =)

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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Creedence Clearwater Revival


[1968] Creedence Clearwater Revival
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[1969] Bayou Country
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Creedence Clearwater Revival começou como The Blue Velvets, um trio californiano formado por John Fogerty (vocal e guitarra), Doug Clifford (bateria) e Stu Cook (baixo). No final dos anos 50 eles eram uma banda unicamente instrumental, até que em 1959 eles começaram a tocar junto da banda do irmão mais velho de John, Tom Fogerty, e o negócio deu tão certo que Tom resolveu se juntar a eles definitivamente. Nessa época eles eram conhecidos como “Tommy Fogerty and The Blue Velvets”.

Em 1964 os caras resolveram ir atrás duma gravadora e acabaram indo para a Fantasy Records. Só que um dos donos da gravadora resolveu implicar com o nome da banda, mudando de The Blue Velvets para The Golliwogs, uma referência a um personagem dum livro que zoava os negros. Com esse nome, 7 singles foram lançados, mas nenhum deles recebeu atenção nacional. Eles quase desmancharam a banda em 1967 por causa de problemas com o exército já que dois dos integrantes (John Fogerty e Doug Clifford) haviam sido convocados. Claro que como bons americanos que são eles passaram a perna no exército e foram dispensados por problemas médicos.

A gravadora deles foi comprada por um tal de Saul Zaentz. O cara foi bacana e tals, resolveu continuar com a banda e até concordou em gravar um álbum completo se eles mudassem o nome da banda. Claro que eles concordaram, e assim nasceu Creedence Clearwater Revival. Só pra explicar, Creedence é parte do nome de um amigo do Tom, Creedence Nuball. Clearwater é de um comercial de cerveja (Clear water Beer), o Revival é porque agora que os quatro estavam reunidos, tudo parecia que ia dar certo.

O primeiro e auto-intitulado álbum do Creedence, lançado em 1968, rendeu ao grupo um disco de ouro e trazia músicas que se tornaram grandes clássicos, como "Susie Q" e "I Putt a Spell on You". Em meio ao grande sucesso das bandas inglesas da época, o Creedence foi um dos primeiros nomes americanos a conseguir um lugar no topo das paradas.

Em 1969 vieram os álbuns "Bayou Country", "Green River" e "Willy and The Poorboys", todos recebendo disco de platina, além de trazerem outros sucessos como "Proud Mary", "Fortunate Song" "Down on the Corner".

Em uma edição da revista Uncut, o vocalista, guitarrista e compositor John Fogerty, comentava faixa a faixa os discos do Creedence, e ao falar sobre o "Bayou Country", de 1969, ele afirmou: "Aquele álbum deixou claro quem éramos, algo como o 'Nevermind' do Nirvana. Depois do 'Bayou Country', comecei a sentir que tinha liberdade e poder de fazer o que quisesse, e como alguém disse uma vez, criei um mito ao meu redor, e vivi dentro dele".

A banda continou a fazer tours, incluindo até um show no festival de artes e música de Woodstock, porém eles não foram incluídos nem nas filmagens nem em nada, porque um dos Fogerty achou que o show foi ruim, pois a banda que tocou antes deles, Grateful Dead, passou o limite de horário e quando foram terminar a apresentação já era 3 da madrugada, então, quando o CCR começou a tocar a platéia já tava dormindo.

O ambiente interno da banda estava conturbado e o John passou a se desentender com os outros membros que estavam enciumados por serem apenas a sombra do líder do grupo. Em fevereiro de 1972 John deixa o Creedence para seguir em carreira solo. O trio remanescente ainda lançou o álbum "Mardi Gras" no mesmo ano, mas logo em seguida anunciou a sua dissolução.

John Fogerty conseguiu fazer sucesso com sua carreira solo, lançando em 1974 o álbum "Zephyr National". Tom morreu em 1990 vitima de problemas respiratórios. Stu Cook e Doug Clifford montaram o Creedence Clearwater Revisited, que se apresenta até os dias de hoje, tocando os clássicos que fizeram sucesso com o Creedence "original".

Difícil imaginar como seria a sonoridade do grunge sem a influência desses caras, John Forgety ensinou muita vocalista a como cantar com sua voz de Gibson plugada num ampilificador da Marshall, como diz um amigo meu.

Os dois primeiros álbuns são uma ótima entrada pra quem quer saber de onde o Kings Of Leon tirou aquele som e aquele visual anti-rockstar.